diario_banal ([info]diario_banal) wrote,
@ 2006-12-04 20:19:00
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Anuska na serra
Ou a morte da Anita...

Caminhávamos com cada vez mais dificuldade, o oxigénio - escasseando-se – transformava-se em machados que se iam enfiando nas nossa gargantas. No entanto, a dor sentida pelo corpo era mascarada e ignorada pelo nosso cérebro, demasiado entretido em defender com fulgor as visões que nos tinha proporcionado o nosso ultimo companheiro de cabeceira. Milhões de emoções nos tinham invadido e, inexoravelmente, as nossas leituras tinham sido diferentes.
- Juro que não percebo onde foste buscar esta ideia de apologia da mulher!
- É simples, quem assumiu a liderança do grupo foi a mulher e não o medico!
- Ainda consigo admitir que se possa ver a glorificação do casal, na sua ideia católica e romântica. Juntos complementam-se e acabam por criar uma “entidade” superior a mera soma das suas duas personalidades. E neste caso, seria esta “entidade” a assumir a liderança.
- Viveram felizes durante a eternidade e tiveram muitos filhos, não é?
- Nada a ver! Vejo uma espécie de estudo sociológico, um testemunho da incapacidade dos humanos definirem o seu próprio destino. E como consequência, a necessidade intrínseca de se juntarem em grupos e precisarem duma liderança.
- Sobre este ponto, concordo. Duma certa forma, nega-se aqui a viabilidade da anarquia. Será sempre preciso um mestre, um feiticeiro, um padre, um presidente ou um rei, para isso tudo faça sentido. Uma representação de Deus ou de qualquer entidade superior na Terra, a volta da qual se unem e que define o rumo as suas vidas.
- Um ateu a falar da procura de Deus! Isto está cada vez melhor!
- E repara que temos aqui dois grupos totalmente diferentes. Num deles o “chefe” impõe-se agindo como um ditador; no outro nasce naturalmente e é aceite pelos outros, como que eleito pelas suas capacidades.
- Já te disse que não devias fumar quando lês. Coitadinho, ficas todo baralhado!
- Fogo pareces o meu pai!
- O teu pai é um sábio!
- Sábio! Bolas! Conheces o meu pai!

A medida que o refugio se ia aproximando, os nossos cérebros pareciam também eles vitimas do frio. As palavras começavam a ser escassas mas os sentidos pareciam cada vez mais despertos, como que revigorados. Por muito que este ritual fosse repetido já varias vezes, apareciam sempre trechos de natureza, puros e virgens, que ainda aumentavam o encanto beático da penosa peregrinação. Ao chegar, desfizemos as mochilas e sentamo-nos frente a lareira onde ainda gizavam algumas brasas.
- Foste tu que ficaste com a comida?
- Comida? Sim, tenho aqui duas barritas de cereais.
- Queres chá. Temos que nos despachar, temos no máximo dez minutos.
- Dá cá. Precisamos “alimentar” os nossos organismos.
- Alimentar? Que palavra tão nobre para descrever as porcarias que estamos a mamar!
- Olha, vou enrolando uns charros, que lá fora é danado, e não me apetece interromper - como problemas “logísticos” - o nosso verdadeira “repasto”, o da alma.
- Que filosófico que tu está hoje!

Estávamos prontos, o disco magico ia aparecer entre os picos cobertos pelas neves eternas. Mal podíamos esperar. E majestoso, como sempre, despediu-se dos espectadores que também o idolatravam numa qualquer na outra parte deste planeta, pediu licença a lua, esperou que ela se retirasse com o seu manto negro e coberto de poeiras cósmicas, vestiu o seu fato de gala rosado e emergiu em todo o seu esplendor.
- Nunca me poderei cansar desta beleza.
- Sinto Deus. Está aqui atrás de nos, a abraçar-nos e a sussurrar: “Olhem e admirem”.
- E lá estas tu outra vez com Deus! Não deixa de ser cómico e contraditório…
Pouco a pouco apareceram as nuvens, lentas e preguiçosas, carregadas com os seus diamantes húmidos. Apaixonados, os picos prateados penetraram e beijaram aquele algodão doce voador. De lábios colados, silenciosamente, atingiram o orgasmo. As montanhas ejacularam anjos com asas douradas e sorrisos extáticos que se espalharam e nos ofereceram as suas mensagens de paz.
- Gostas de mim?
- Gosto.
- Mas porque?
- Quando a lama que obstrui a tua mioleira se dissipar, voltaras a saber.
- Porque estar aqui comigo?
- Porque eu também quero vê-los. Porque todos nos queremos vê-los.
- Tantas vezes senti-me triste aqui. Sentia que não era digno de os receber. Sentia que não era digno da tua companhia.
- Ninguém merece. Estão aqui, livres, a flutuar a volta das nossas cabeças. Não te pedem nada. Só os aceita quem quiser. Tal como eu.
- Já há um ano que não nos vemos, mas é como se nunca te tivesse perdido.

Acendi outro e encostei o minha cabeça cansada ao ombro dele.
- Lembras-te da L.
- Sim, lembro-me e também daquela vez em que no meio de toda a gente, ela virou-se para ti e beijou-te. Ficamos todos petrificados.
- Sim foi estranho, senti-me violado pela língua dela.
- E lembro-me também da gargalhada geral que provocaste quando te levantaste e pediste se não havia nenhum quarto vazio.
- Ela estava completamente bêbada e precisava de dormir…
- Sim, eu sei. Mas não te esqueças dos bolinhos mágicos, do rum e daqueles alucinantes revolveres que não paravam de rodar. Estávamos todos pedrados. O revolver, aquilo foi invenção do diabo! Nunca ninguém chegou a perceber a vossa relação. Cada vez que saímos, ela nunca queria vir.
- Mas sempre que estava mal, ela parecia ter um sexto sentido e aparecia lá em casa. Não precisava de falar, deitava-se por trás de mim e segurava as minhas mãos. Só assim é que, naqueles dias, eu conseguia dormir.
- Lembro-me, pareciam duas colheres encaixadinhas uma na outra, apesar de teimares que não havia nada entre vocês.
- E não havia nada, pelo menos nada do que vocês imaginavam.
- Os teus delírios, por vezes, eram cómicos, mas também podiam tornar-se assustadores.
- Pensava que ela tinha pena de mim. Passei por uma fase em que não suportava mais aquele olhar, o seu corpo contra o meu. Gritei-lhe tantas barbaridades. Mas ela voltava sempre. Ficava desesperado até que um dia decidi ignora-la.
- Tens que parar com estas porcarias. Tens que te controlar. Estás de novo possesso.
- Não... Sabes… Ainda a vejo.
- A sério?
- A semana passada, fomos passear. Tinha voltado o B uns dias antes e para variar foi uma orgia de erva. Delírios atrás de delírios e paranóias atrás de paranóias.
- Voltas sempre a cair na mesma armadilha.
- Foi violento, duro com o sempre, mas no meio dos delírios senti que precisava de estar de novo sozinho com ela. Sabes que ela gosta de gomas.
- Não sabia.
- Compramos gomas e voltamos para casa. Como sempre, assim que o sol desaparecia, uma vontade tremenda de sexo nos invadia, um sexo assexuado e preguiçoso. Naquela noite, tinha guardado aquelas gomas maiores em forma de serpentes. Juntou-as todas, despiu-me e começou a chicotear-me com o instrumento multicolor e improvisado. Ao sentir o açúcar a deslizar e desfazer-se sobre o meu corpo quente, entrei em transe. Depois, ela lambeu cada uma das gotas brilhantes espalhadas sobre mim.
- Não te sintas obrigado de entrar em mais pormenores.
- Sussurrou que me amava e queria saber qual era a sensação de eu ser finalmente doce para com ela. Que queria saborear a minha pele e não ter que cuspir o sabor amargo do suor que me cobria entre espasmos. Que eu não a deixava amar-me. Que não podia continuar a querer ser amado como um Bobo que esconde, vergonhosamente, o seu luar. E por isso, só semeava o caos a minha volta.
- O amor como tu o procuras não existe.
- Que não aceitava que ninguém entrasse no meu mundo de fantasias. Que a perfeição que eu tanto procurava só se encontrava nos anjos, místicos e irreais. Que eu não tinha que a merecer. E que não era nenhum profeta com a missão de transcrever a beleza celeste e de divulgar a boa nova a quem eu amava.
- Andas connosco e pensas extasiar-te como nós. Mas nunca o conseguiste. Estas sempre a procura de mais. Decoras, pintas, analisas, vês mas nunca vives.
- Eles não deixavam…
- Todo os dias pintas um quadro novo, com cores cada vez mais fortes, olhas para ele, mostras a toda a gente e depois queima-lo, porque nunca chega, porque o encanto desapareceu. Não percebes que é por ser morto. Percorres as estradas cada vez mais rápido, já viste tudo o que tinhas para ver, já pensaste tudo o que tinhas para pensar, o tédio apodera-se de ti cada vez mais depressa, só iras conseguir parar quando atingires a velocidade da luz e estoirar os miolos num bigbang neurótico.
- Sabes, estou cansado.
- Enquanto nos divertimos com as palavras, tu usas estas mesmas para aumentar a tua alienação. Connosco, não levantas o olhos. Procuras só alguma flores para disfarçar o fétido cheiro que emana da sepultura que te serve de alma.
- Não nos vimos durante toda a semana. Ontem, ela voltou. Sem cio, sem gritos, deitamo-nos e voltamos a aconchegar-nos. Pegou nas minhas mãos e adormecemos. Desta vez, não acordei no meio da noite para admirar a sua beleza.
- Vive e para de analisar.
- Hoje a tarde quando acordei, queimei as memorias e liguei-te. Ela ficou a dormir, beijei longamente aquelas mãos e vim ter contigo. Queria sentir - pela primeira vez - o bater de asas dos anjos no meu rosto e queria que fosse na tua companhia. É a minha despedida...
-Despedida?
- Amanhã, vamos partir, desta vez não sabemos para onde, mas sabemos que será a minha ultima viagem.



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[info]anamnese
2008-01-02 03:19 am UTC (link)
Ainda vives no tédio e no cansaço? Se sim, achas que algum dia vais conseguir sair de lá?

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[info]diario_banal
2008-01-02 09:48 am UTC (link)
uma boa pergunta....
sabes que naquela altura sentia-me muito só mesmo, o que duma certa forma, impulsionou estas diareias verbais... uma especie de dialogo entre o emilio e o filipe... mas algo mudou entretanto, é a saudade do passado...

falaste-me ontem das comparações que fiz, mais uma vez lamento ter feito passar a mensagem errada, mas.... é justamento o motivo do desaparecimento do "emiliodobrasil", e algo que quero mesmo eliminar, a comparação com o passado... nunca vou voltar a encontrar condições como as de aquela altura, e finalemente mentalizei-me nisso, talvez por tu e eu conseguirmos esta deliciosa cumplicidade, e assim ter voltado a acreditar...

resumindo, prodisionalmente sim, ainda vivo nisto, mas pessoalmente, nem por isso, poderia ser melhor é verdade, mas bom ou mau é o que há, então, mesmo que seja "perseguido" por uma ou insultado por outra, que se dane... borboletas power!

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ps: tu gostaste, foi do chicote de gomas! :D

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[info]anamnese
2008-01-09 11:36 pm UTC (link)
Saudade do passado? Tens?

Voltado a acreditar em quê, exactamente?
Quando dizes que te mentalizaste que não voltarás a encontrar condições como as daquela altura, queres dizer que o que encontrares agora nunca será tão bom? Ou que, se for bom, mesmo assim nunca será muito mais do que uma espécie de substituto?

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P.S.: Not really.

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[info]diario_banal
2008-01-11 06:02 pm UTC (link)
acreditar que me acontecem coisas bonitas...

quando falo nas condições, refiro-me a circunstancias, no sentido em que, foi a primeira vez q sai da casa dos meus pais (viver "sozinho"), primeiras drogas, primeira vida "em comunidade" etc... é como uma primeira foda, fica na nossa memoria, não por ser melhor nem pior...

é como o primeiro encontro em que ficamos ao pe dos sem abrigos, a tua visita surpresa, o legendary, as ferias c o rui, o elastico....

nada de subsitutos, so factos que acontecem em momentos q ficam gravados...

su so quero dizer que o que la vivi, nunca mais o vou viver, e não vale a pena tentar recriar, o que honestamente eu tentava fazer.

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ps: porca!

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[info]anamnese
2008-01-11 07:39 pm UTC (link)
Senti-te, percebi-te, acreditei-te.

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[info]diario_banal
2008-01-17 10:49 pm UTC (link)
:D
/me happy...

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