| diario_banal ( @ 2006-10-08 19:47:00 |
Pocahontas e o velho feiticeiro
updated dia 16/10/2006
Já não conseguia dormir a semanas, todas as noites ouvia o mesmo martelar periódico e sem fim a rondar a minha casa, levantava-me, sondava o mundo exterior a partir de todas as janelas da casa, mas não via nada. Naquela noite, bateram a minha porta. A pancadas frenéticas e violentas ecoavam na minha cabeça ensonada. Perante tanta insistência, nu, fui abrir a porta.
A minha frente, uma velha com uma perna de pau, segurando nos seus braços uma massa informe enrolada num resto de xaile preto e sujo. Incrédulo, esfreguei os olhos e voltei a observar esta – misteriosa - visita.
- A senhora deseja?
- Não desejo nada! Ou melhor, sim, desejo. Vim cá entregar-te o nosso filho.
- Não percebo. Quem é a senhora?
Levantou a cabeça. O seu rosto lívido e faminto, não passava de pele esticada sobre o crânio. No lugar dos seus olhos, desenhavam-se duas crateras tenebrosas, dois buracos negros que me atraiam. Sentido a hipnose que provocara em mim, um sorriso macabro e desdentado rasgou-lhe a face.
- Ele é tão lindo.
Em sintonia com as palavras, num gesto teatral abriu o xaile. Apareceu - naquele leito – um bebé, nato-morto, de pele transparente a cobrir-lhe o esqueleto e as veias azuis. Gizava na posição fetal, com o cordão umbilical a volta do pescoço, enforcado durante o parto.
Perante este quadro abjecto, dei um passo para trás. Sentia o azedo sabor a vomito a invadir a minha garganta. Não conseguia deixar de fixar aquele cadáver.
- Vês, apresento-te o teu filho. É parecido contigo, têm os teus olhos.
Não passava dum feto com olhos globulosos, castanhos, transparentes, vazios. Uns olhos mortos.
- É o nosso filho. É o fruto das nossas longas noites de amor.
Paralisado, senti-a a aproximar-se. Pousou a cabeça sobre os meus ombros, abraçou-me, os seus dedos descarnados pegaram no meu queixo e – suavemente – levaram-no até os seus lábios secos, beijou-me.
- Ainda sinto o sabor dos teus lábios a passear no meu corpo, o teu sexo erguido e frio que me oferecias e sobre o qual me debruçava. O movimento de vai-e-vem dentro de mim a atingir o meu coração. Ainda sinto o teu suor e o teu perfume a entranhar-se em todos os poros da minha pele, o teu esperma glaciar a pintar de azul o interior das minhas entranhas.
Tentei libertar-me dos seus braços, afastei-a. Estava aterrorizado, tremia, não conseguia falar, não conseguia pensar. Só via aqueles olhos mortos, na minha mente encenavam um Kama-Sutra fúnebre, onde eu crucificado ao chão era utilizado e usado como um vulgo dildo humano.
- Já não me amas? Já não consegues olhar para mim!?
Cuspiu, da sua boca saíram baratas peludas e viscosas. No chão, finalmente livres e ainda atordoadas pela queda, olharam para mim com lágrimas a percorre-lhes a face. Atónico perante este espectáculo, fiquei a observá-las enquanto subiam pelas minhas pernas, a procura do meu sexo.
- Deixa-nos… Queremos voltar a ser teus…
- É teu filho, são todos os teus filhos, não os rejeites…. Sentem tanta a falta do pai, eles amam-te.
Finalmente lúcido, enxotei-os, virei-me para ela e - com rosto de ódio e medo – empurrei-a para fora do meu lar, recuei e tentei fechar a porta. Mas, como se tivesse lido na minha mente, enfiou a sua perna de pau no vão da porta, os últimos centímetros que ainda não separavam o meu lar da visão do passado inferno que ela me oferecia.
- Todas as noites chamavas-me, gritavas por aquele amor morto. Não te lembras do uivos que rasgavam o teu peito?
- Mas…
- Todas as noites consolei-te, abracei-te, amei-te… Todas as noites.......
- Mas, quem é a senhora?
- E depois expulsavas-me da cama! mas ainda te amo, sempre voltei naquelas tuas noites de loucura...
As suas crateras encheram-se de lágrimas, cuspiu outra vez. Desta vez, banhados em bílis e sangue, os - pretendidos - filhos saíram da sua boca decompostos e mortos. Ao atingir o chão, formaram uma mancha desenhando o teu rosto.
- Ainda pensas nela! Ingrato! Vé bem o que os nossos filhos lhe vão fazer!
Assustadas, as baratas olharam para o teu rosto pintado no chão. Com tristeza e ódio, desfizeram este teu retrato visceral e olharam para mim.
- Não sobrara nada!
- O quê?
Enfiaram os seus focinhos, na massa viscosa que cobria o chão e alimentaram a sua ira com os restos dos seus próprios irmãos.
- Pai, veja o fruto do seu ódio.
Observaram o meu filho com olhos ensanguentados e famintos, subiram pela perna de pau.
- Pai, veja qual vai ser o destino do seu preferido, aquele que nasceu com os seus olhos!
- Não! Parem!
Penetraram o xaile e invadiram o ventre do primogénito, rasgaram-lhe as entranhas. Profanaram o corpo do filho para matar o incestuoso pai. A seguir ao festim, uniram-se e cobriram os ossos do que restava do irmão preferido. Retomaram o lugar da defunta carne, procurando reproduzir a sua forma fantasma.
- Pai, agora nos também temos os teus olhos. Pega-nos ao colo. Ama-nos como nos te amamos.
- Não posso…
Do seu saiote, a velha tirou uma chucha que enfiou na boca do filho.
- Esqueçam… Mortos, já somos nós, tal como ele… Vamos embora…
Deu um passo atrás, as suas orbitas fixaram as minhas lágrimas e com voz de repudio despediu-se.
- Ingrato!
Voltou a tapar o primogénito, virou as costas e foi-se embora.
updated dia 16/10/2006
Já não conseguia dormir a semanas, todas as noites ouvia o mesmo martelar periódico e sem fim a rondar a minha casa, levantava-me, sondava o mundo exterior a partir de todas as janelas da casa, mas não via nada. Naquela noite, bateram a minha porta. A pancadas frenéticas e violentas ecoavam na minha cabeça ensonada. Perante tanta insistência, nu, fui abrir a porta.
A minha frente, uma velha com uma perna de pau, segurando nos seus braços uma massa informe enrolada num resto de xaile preto e sujo. Incrédulo, esfreguei os olhos e voltei a observar esta – misteriosa - visita.
- A senhora deseja?
- Não desejo nada! Ou melhor, sim, desejo. Vim cá entregar-te o nosso filho.
- Não percebo. Quem é a senhora?
Levantou a cabeça. O seu rosto lívido e faminto, não passava de pele esticada sobre o crânio. No lugar dos seus olhos, desenhavam-se duas crateras tenebrosas, dois buracos negros que me atraiam. Sentido a hipnose que provocara em mim, um sorriso macabro e desdentado rasgou-lhe a face.
- Ele é tão lindo.
Em sintonia com as palavras, num gesto teatral abriu o xaile. Apareceu - naquele leito – um bebé, nato-morto, de pele transparente a cobrir-lhe o esqueleto e as veias azuis. Gizava na posição fetal, com o cordão umbilical a volta do pescoço, enforcado durante o parto.
Perante este quadro abjecto, dei um passo para trás. Sentia o azedo sabor a vomito a invadir a minha garganta. Não conseguia deixar de fixar aquele cadáver.
- Vês, apresento-te o teu filho. É parecido contigo, têm os teus olhos.
Não passava dum feto com olhos globulosos, castanhos, transparentes, vazios. Uns olhos mortos.
- É o nosso filho. É o fruto das nossas longas noites de amor.
Paralisado, senti-a a aproximar-se. Pousou a cabeça sobre os meus ombros, abraçou-me, os seus dedos descarnados pegaram no meu queixo e – suavemente – levaram-no até os seus lábios secos, beijou-me.
- Ainda sinto o sabor dos teus lábios a passear no meu corpo, o teu sexo erguido e frio que me oferecias e sobre o qual me debruçava. O movimento de vai-e-vem dentro de mim a atingir o meu coração. Ainda sinto o teu suor e o teu perfume a entranhar-se em todos os poros da minha pele, o teu esperma glaciar a pintar de azul o interior das minhas entranhas.
Tentei libertar-me dos seus braços, afastei-a. Estava aterrorizado, tremia, não conseguia falar, não conseguia pensar. Só via aqueles olhos mortos, na minha mente encenavam um Kama-Sutra fúnebre, onde eu crucificado ao chão era utilizado e usado como um vulgo dildo humano.
- Já não me amas? Já não consegues olhar para mim!?
Cuspiu, da sua boca saíram baratas peludas e viscosas. No chão, finalmente livres e ainda atordoadas pela queda, olharam para mim com lágrimas a percorre-lhes a face. Atónico perante este espectáculo, fiquei a observá-las enquanto subiam pelas minhas pernas, a procura do meu sexo.
- Deixa-nos… Queremos voltar a ser teus…
- É teu filho, são todos os teus filhos, não os rejeites…. Sentem tanta a falta do pai, eles amam-te.
Finalmente lúcido, enxotei-os, virei-me para ela e - com rosto de ódio e medo – empurrei-a para fora do meu lar, recuei e tentei fechar a porta. Mas, como se tivesse lido na minha mente, enfiou a sua perna de pau no vão da porta, os últimos centímetros que ainda não separavam o meu lar da visão do passado inferno que ela me oferecia.
- Todas as noites chamavas-me, gritavas por aquele amor morto. Não te lembras do uivos que rasgavam o teu peito?
- Mas…
- Todas as noites consolei-te, abracei-te, amei-te… Todas as noites.......
- Mas, quem é a senhora?
- E depois expulsavas-me da cama! mas ainda te amo, sempre voltei naquelas tuas noites de loucura...
As suas crateras encheram-se de lágrimas, cuspiu outra vez. Desta vez, banhados em bílis e sangue, os - pretendidos - filhos saíram da sua boca decompostos e mortos. Ao atingir o chão, formaram uma mancha desenhando o teu rosto.
- Ainda pensas nela! Ingrato! Vé bem o que os nossos filhos lhe vão fazer!
Assustadas, as baratas olharam para o teu rosto pintado no chão. Com tristeza e ódio, desfizeram este teu retrato visceral e olharam para mim.
- Não sobrara nada!
- O quê?
Enfiaram os seus focinhos, na massa viscosa que cobria o chão e alimentaram a sua ira com os restos dos seus próprios irmãos.
- Pai, veja o fruto do seu ódio.
Observaram o meu filho com olhos ensanguentados e famintos, subiram pela perna de pau.
- Pai, veja qual vai ser o destino do seu preferido, aquele que nasceu com os seus olhos!
- Não! Parem!
Penetraram o xaile e invadiram o ventre do primogénito, rasgaram-lhe as entranhas. Profanaram o corpo do filho para matar o incestuoso pai. A seguir ao festim, uniram-se e cobriram os ossos do que restava do irmão preferido. Retomaram o lugar da defunta carne, procurando reproduzir a sua forma fantasma.
- Pai, agora nos também temos os teus olhos. Pega-nos ao colo. Ama-nos como nos te amamos.
- Não posso…
Do seu saiote, a velha tirou uma chucha que enfiou na boca do filho.
- Esqueçam… Mortos, já somos nós, tal como ele… Vamos embora…
Deu um passo atrás, as suas orbitas fixaram as minhas lágrimas e com voz de repudio despediu-se.
- Ingrato!
Voltou a tapar o primogénito, virou as costas e foi-se embora.