| diario_banal ( @ 2006-09-23 21:59:00 |
Anuska em Paredes de Coura
Ou a insustentável banalidade do ego
A noite estava agradável, refrescada pelo final de tarde a chover. Deus tinha conseguido ganhar mais uma difícil batalha, poupando o homem mais algumas chamas do inferno, anunciando a sua vitória com gritos pintados de raios de luminosos. O meu corpo estava, mas desta vez só ele. Também eu tinha ganho uma batalha. E a guerra? Não sei.
- O que é que isso interessa?
- Nada.
Os objectos voltaram a ser simples objectos, não me apetecia beijar a televisão nem esfaquear o Menino-que-chora. Em sinal de tréguas, a cama - nua - chamava por mim.
- Vem querido, vem. Estou pronta para te receber.
- Eu também estou pronto.... Para te amar.
A caneta ficou pousada em cima da secretaria, as folhas de papel continuavam virgens e obsoletas. Irritado, o Diabo mostrou-me o seu rosto de enxofre.
- Deves pensar que te vou deixar descansar! Mas enganas-te.
- O que é que isso interessa?
- Nada. Para já!
De manhã, tinha passeado pelo parque e admirado o espectáculo dos cisnes a deslizar sobre as águas do lago. Bati palmas e pedi mais. Mas, pretensiosos, de cabeça erguida, viraram as costas e foram ter como a mãe.
- Queridos, despachem-se. O pequeno-almoço está pronto.
- Já vamos.
- Quem quer um sumo de laranja fresquinho?
- Eu, eu.
A mesa estava posta composta com croissants, frutas e doces de mil e uma cores que cobriam a toalha bordada pela avó. Ciumento e invejoso, dirigi-me a esplanada do bar, pedi um sumo de laranja e um croissant com doce de cereja. No final do repasto, lambi os dedos e senti o meu corpo a absorver os alimentos, transformando-nos em quadros de Van Gogh. Girassóis, estendidos sobre espreguiçadeiras verdes e imaculadas, tomavam banhos de sol.
Maravilhado, saí da esplanada e sentei-me a sombra dum eucalipto. O banco estava coberto por finas gotas de água, macias e doces, que se desviaram-se para acolher o meu corpo e oferecer-me o aconchego que o céu ou o seu Dono me queria negar. Peguei no “Big Sur” e voltei a ler os poemas sobre o mar. Já não eram sinistros nem neuróticos, mas simplesmente e loucamente belos. Acendi um cigarro e deixei os meus olhos percorrer o espectáculo da natureza.
Um capuchinho vermelho, montando o seu nobre triciclo branco, passou a minha frente.
- Cara ou coroa?
Deixava no seu caminho umas bolas de sabão, não se queria perder e queria voltar a casa atempadamente para ver o telejornal. Angelical e louro, o seu rosto apresentava um sinal dourado no canto esquerdo da boca. O mar das Caraíbas invadia os seus olhos, peixes prateados e majestosos saltavam no azul turquesa das suas íris.
- Cara ou coroa?
- Cara.
Deu-me um beijinho e continuou o seu caminho.
- Que menina tão amorosa.
Metros a frente, uma mulher - com pouco mais de 20 anos – estava também sentada, lia a “Elle”. O seu rosto, iluminado e irradiante, emanava felicidade por todos os poros. Era um menino, já sabia qual era o sexo do bebe e estava ansiosa por o dizer ao namorado. Iam casar e viver felizes para sempre. Iam chamar o menino André. Ia ser medico ou poeta. Ia ter um sorriso encantador e nenhuma mulher lhe ia resistir.
- Cara ou coroa?
- Coroa.
O capuchinho saiu do triciclo, fixou o olhar da mulher, aproximou-se e espetou os seus dentes na garganta da futura mãe. Segurou o pescoço da sua vitima, controlando os seus espasmos até lhe sugar todo o sangue. Acabou e virou-se para mim. Um focinho comprido e cinzento escuro, armado de dentes afiados e ensanguentados, tinha substituído o seu belo sorriso. Com a língua, recolheu restos de pele pendurados aos seus lábios. Voltando ao seu dragão de ferro, piscou-me o olho, negro como as trevas.
- Tenho que me despachar, senão a minha avó vai ficar chateada. Ela tem sempre medo de quem possa encontrar no seio desta floresta.
O meu telemóvel tocou. Era meu irmão e queria saber quando o iria visitar. Não sabia, mas faria os possíveis para ser o mais cedo possível. Salivei só de pensar no Licor de Beirão e nas chouriças assadas que alimentavam as nossas directas. Desliguei e fechei os olhos. Senti uma música invadir-me: Mono, album “One more step and you die”, faixa 2 “Com”.
Flash:
Os beijos eram preguiçosos e intensos, as carícias eram delicadas. Rasguei a tua roupa e mordi-te o lábio. Beijamo-nos de novo, carinhosamente. Arranhaste-me as costas. Lambi o teu sexo. Atei-te com as algemas felpudas a cama. Beijei-te o interior das coxas. Agarraste o meu cabelo e levantaste-me a cabeça.
- Fode-me!
Amamo-nos.
Projecção: Orgasmo.
A música acabou, as imagens despediram-se da minha mente. 16 minutos de vida, 16 minutos de picos e vales, 16 minutos intensos e belos. Abri os olhos, o meu sexo erguido doía-me, voltei para casa. O corpo, de novo atento a suas necessidades, pediu-me comida, precisava tanto destes alimentos que a insanidade lhe tinha negado até agora.
Satisfeito, fugi desta casa-cela almofadada, receptáculo infame de todos os meus gritos e lágrimas.
Procurava locais públicos e cheios de energia, quadros floridos sobre os quais poderia fixar o meu olhar. Como na véspera, o anjo moreno voltou a cruzar o meu caminho. Sorri.
- Hoje, já sabes onde fica a casa de banho.
- Sim.
Corou.
- Mas podemos tomar um café? O que estas a fazer?
- A corrigir uns textos.
- Não me digas que és professor?
Sorri.
“Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço”. Virei-me, mas não estava lá, não passava dum eco do passado. No seu lugar uma serigrafia manhosa e banal com uma paisagem campestre.
- Não. É uma espécie de testamento. É a minha despedida.
- Posso ver?
Corei
- Sim, se quiseres.
Misturavam-se gargalhadas, sorrisos, conversas e partilhas. Um piscar de olhos. Mais um sorriso. O real e o virtual, dois mundos – durante tanto tempo separados, alimentando a minha esquizofrenia – uniam-se. Neste dia, formaram uma única bola de sabão na qual me deixei flutuar.
- Também adoro.
- A sério.
- Estranho, não é? Felizes coincidências...
- Então talvez gostes também disto. ;)*
- Tenho que desligar. ***
O Müller com voz dos Mão Morta diz que a tortura é mais fácil de aprender que a descrição da tortura. A felicidade também.
Menti, as folhas enchem-se de palavras. Mas o quadro pintado tem o sabor do azul do céu e não do vermelho do meu sangue.
original : http://emiliodobrasil.livejournal.com/1 31088.html
Ou a insustentável banalidade do ego
A noite estava agradável, refrescada pelo final de tarde a chover. Deus tinha conseguido ganhar mais uma difícil batalha, poupando o homem mais algumas chamas do inferno, anunciando a sua vitória com gritos pintados de raios de luminosos. O meu corpo estava, mas desta vez só ele. Também eu tinha ganho uma batalha. E a guerra? Não sei.
- O que é que isso interessa?
- Nada.
Os objectos voltaram a ser simples objectos, não me apetecia beijar a televisão nem esfaquear o Menino-que-chora. Em sinal de tréguas, a cama - nua - chamava por mim.
- Vem querido, vem. Estou pronta para te receber.
- Eu também estou pronto.... Para te amar.
A caneta ficou pousada em cima da secretaria, as folhas de papel continuavam virgens e obsoletas. Irritado, o Diabo mostrou-me o seu rosto de enxofre.
- Deves pensar que te vou deixar descansar! Mas enganas-te.
- O que é que isso interessa?
- Nada. Para já!
De manhã, tinha passeado pelo parque e admirado o espectáculo dos cisnes a deslizar sobre as águas do lago. Bati palmas e pedi mais. Mas, pretensiosos, de cabeça erguida, viraram as costas e foram ter como a mãe.
- Queridos, despachem-se. O pequeno-almoço está pronto.
- Já vamos.
- Quem quer um sumo de laranja fresquinho?
- Eu, eu.
A mesa estava posta composta com croissants, frutas e doces de mil e uma cores que cobriam a toalha bordada pela avó. Ciumento e invejoso, dirigi-me a esplanada do bar, pedi um sumo de laranja e um croissant com doce de cereja. No final do repasto, lambi os dedos e senti o meu corpo a absorver os alimentos, transformando-nos em quadros de Van Gogh. Girassóis, estendidos sobre espreguiçadeiras verdes e imaculadas, tomavam banhos de sol.
Maravilhado, saí da esplanada e sentei-me a sombra dum eucalipto. O banco estava coberto por finas gotas de água, macias e doces, que se desviaram-se para acolher o meu corpo e oferecer-me o aconchego que o céu ou o seu Dono me queria negar. Peguei no “Big Sur” e voltei a ler os poemas sobre o mar. Já não eram sinistros nem neuróticos, mas simplesmente e loucamente belos. Acendi um cigarro e deixei os meus olhos percorrer o espectáculo da natureza.
Um capuchinho vermelho, montando o seu nobre triciclo branco, passou a minha frente.
- Cara ou coroa?
Deixava no seu caminho umas bolas de sabão, não se queria perder e queria voltar a casa atempadamente para ver o telejornal. Angelical e louro, o seu rosto apresentava um sinal dourado no canto esquerdo da boca. O mar das Caraíbas invadia os seus olhos, peixes prateados e majestosos saltavam no azul turquesa das suas íris.
- Cara ou coroa?
- Cara.
Deu-me um beijinho e continuou o seu caminho.
- Que menina tão amorosa.
Metros a frente, uma mulher - com pouco mais de 20 anos – estava também sentada, lia a “Elle”. O seu rosto, iluminado e irradiante, emanava felicidade por todos os poros. Era um menino, já sabia qual era o sexo do bebe e estava ansiosa por o dizer ao namorado. Iam casar e viver felizes para sempre. Iam chamar o menino André. Ia ser medico ou poeta. Ia ter um sorriso encantador e nenhuma mulher lhe ia resistir.
- Cara ou coroa?
- Coroa.
O capuchinho saiu do triciclo, fixou o olhar da mulher, aproximou-se e espetou os seus dentes na garganta da futura mãe. Segurou o pescoço da sua vitima, controlando os seus espasmos até lhe sugar todo o sangue. Acabou e virou-se para mim. Um focinho comprido e cinzento escuro, armado de dentes afiados e ensanguentados, tinha substituído o seu belo sorriso. Com a língua, recolheu restos de pele pendurados aos seus lábios. Voltando ao seu dragão de ferro, piscou-me o olho, negro como as trevas.
- Tenho que me despachar, senão a minha avó vai ficar chateada. Ela tem sempre medo de quem possa encontrar no seio desta floresta.
O meu telemóvel tocou. Era meu irmão e queria saber quando o iria visitar. Não sabia, mas faria os possíveis para ser o mais cedo possível. Salivei só de pensar no Licor de Beirão e nas chouriças assadas que alimentavam as nossas directas. Desliguei e fechei os olhos. Senti uma música invadir-me: Mono, album “One more step and you die”, faixa 2 “Com”.
Flash:
Os beijos eram preguiçosos e intensos, as carícias eram delicadas. Rasguei a tua roupa e mordi-te o lábio. Beijamo-nos de novo, carinhosamente. Arranhaste-me as costas. Lambi o teu sexo. Atei-te com as algemas felpudas a cama. Beijei-te o interior das coxas. Agarraste o meu cabelo e levantaste-me a cabeça.
- Fode-me!
Amamo-nos.
Projecção: Orgasmo.
A música acabou, as imagens despediram-se da minha mente. 16 minutos de vida, 16 minutos de picos e vales, 16 minutos intensos e belos. Abri os olhos, o meu sexo erguido doía-me, voltei para casa. O corpo, de novo atento a suas necessidades, pediu-me comida, precisava tanto destes alimentos que a insanidade lhe tinha negado até agora.
Satisfeito, fugi desta casa-cela almofadada, receptáculo infame de todos os meus gritos e lágrimas.
Procurava locais públicos e cheios de energia, quadros floridos sobre os quais poderia fixar o meu olhar. Como na véspera, o anjo moreno voltou a cruzar o meu caminho. Sorri.
- Hoje, já sabes onde fica a casa de banho.
- Sim.
Corou.
- Mas podemos tomar um café? O que estas a fazer?
- A corrigir uns textos.
- Não me digas que és professor?
Sorri.
“Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço”. Virei-me, mas não estava lá, não passava dum eco do passado. No seu lugar uma serigrafia manhosa e banal com uma paisagem campestre.
- Não. É uma espécie de testamento. É a minha despedida.
- Posso ver?
Corei
- Sim, se quiseres.
Misturavam-se gargalhadas, sorrisos, conversas e partilhas. Um piscar de olhos. Mais um sorriso. O real e o virtual, dois mundos – durante tanto tempo separados, alimentando a minha esquizofrenia – uniam-se. Neste dia, formaram uma única bola de sabão na qual me deixei flutuar.
- Também adoro.
- A sério.
- Estranho, não é? Felizes coincidências...
- Então talvez gostes também disto. ;)*
- Tenho que desligar. ***
O Müller com voz dos Mão Morta diz que a tortura é mais fácil de aprender que a descrição da tortura. A felicidade também.
Menti, as folhas enchem-se de palavras. Mas o quadro pintado tem o sabor do azul do céu e não do vermelho do meu sangue.
original : http://emiliodobrasil.livejournal.com/1