| diario_banal ( @ 2006-08-28 09:10:00 |
Anuska na esplanada
O despertador tocou mil vezes, mas não me conseguia levantar, não conseguia sair do torpor, mantido por milhões de garras afiadas e invisíveis. Duas mortalhas, um cigarro, um isqueiro, droga, os únicos alimentos que suportavam o meu corpo débil. De mãos tremidas, procurei vos, meus caros companheiros; finalmente meus, o mundo desapareceu transformando nestas duas mãos firmes e seguras a preparar os ingredientes para mais um dia a flutuar na cidade fantasma, sem corpo e sem alma, vazio, morto, descansado. Sem espasmos e sem palavras, a escassa lucidez que ainda percorria a minha mente, agarrava-se com todas as forças do desespero a esta ultima flor selvagem e delicada,
Flash:
Na outra ponta da mesa, o penetra. Todos os dias estava lá em casa, chegando por volta da hora de jantar e saindo com o ultimo convidado.
- Não percebo, nunca senti isso.
- Porque alimentas constantemente o monstro. Mas se o deixas passar fome, verás.
- Nunca me aconteceu.
- Com os cogumelos notou-se mais, 10 milhões de vezes mais. Mas a descida é terrível.
“Terrível”, que palavra tão pobre para traduzir a violação do nosso cérebro pelo diabo e todos os seus demónios armados com os nossos piores medos e tormentos, pensava eu.
Como um autómato, seguia todos os passos do guião que tinha escrito para conseguir sobreviver.
Primeiro, tomava o meu café e fumava o meu primeiro Camel.
Segundo, voltava para casa fazer as minhas necessidades.
Terceiro, ia ao Multibanco verificar ainda tinha dinheiro para os meus vícios.
Quarto, carregava o telemóvel para verificar se ainda funcionava e se não tinha um problema que o impedisse de receber chamadas e mensagens.
Quinto, tomava o segundo café do dia, para voltar a activar o efeito do “comprimido” e fumava o segundo cigarro.
Sexto, voltava para casa.
O inimigo, bem que enfraquecido, ainda não se dava como vencido, tal uma hiena cobarde esperava – paciente e esfomeada – a minha morte. Na hiperactividade e na rotina encontrava os leais soldados que protegiam a minha retaguarda, criavam uma bolha inquebrável assenta sobre uma perpetua overdose de sons e imagens. Pela tampa, cada vez mais solta, do meu caixão, conseguia vislumbrar um mundo mascarado de vida; bebés sonhos com berros e olhos globulosos começavam a dar pontapés no meu ventre.
- Não vás!
- Tenho que ir.... Tenho que lá voltar....
- Mas sabes que ainda não desapareceram.
- Se calhar enganas-te...
O cheiro a sangue, apesar de enfraquecido, tinha sobrevivido; o contorno do corpo ainda estava pintado de branco no asfalto preto.
Flash:
Child in time do Live at Japan começou, era a minha musica, a ultima de cada uma das festas que organizávamos. Por respeito ou desinteresse, toda a gente se afastava, sobrando só o quadro pintado por aqueles gritos onde no final duma dança tribal chegava ao clímax. A C, tal como tinha entrado na minha vida, com o seu ar tímido e provocador, aproximou-se de mim e pegou na minha mão.
- Está fria. Deixa-me a aquecer contra o meu corpo.
- (silencio)
- É estranho, as nossa vidas são tão semelhantes. Será o destino?
- (silencio)
- Temos as mesmas dores, as mesmas paixões, os mesmos desejos...
Levantou a t-shirt e colocou a minha mão na sua anca.
- As tuas mãos continuam frias.
Lentamente, levou-me até o seu seio. Os nossos corpos juntaram-se, os nossos olhos fornicaram sem amor, libertando simples e selvagens desejos carnais. Introduziu a minha mão nas suas cuecas e ofereceu-lhe o seu sexo húmido.
- Não posso mas apetece-me.
- Apetece-me mas não posso.
Ainda enfraquecido pelo cheiro a sangue, não queria voltar para casa. Instintivamente, dirigi-me até café que costumava ser meu, sentei-me a mesa que costumava ser minha, pousei o minha mala na cadeira que costumava ser dela e esperei pelo empregado.
- É um café e um maço de Camel, como de costume?
- Obrigado.
Mas não apareceu. O balcão estava vazio, destruído, coberto de pó e de restos bolorentos de bolos. As cores tinham desaparecido, as mesas e as cadeiras - desfeitas e cobertas por teias - gizavam no chão. A minha volta os fantasmas bebiam os seus café quentes e fumavam os seus cigarros. Por respeito ou desinteresse, mantinham-se calados e não olhavam para mim. Tremendo, acendi um cigarro e fechei os olhos.
- O senhor deseja?
- Um café.
O sol queimava-me os olhos, mas não me importava. A leve brisa que percorria a esplanada - misturada com o agradável cheiro a torrada que emanava do café cheio de sorrisos e palavras - sabia-me a vida. No parque, crianças e cães dançavam como se fosse a minha ultima musica.
- Pelos vistos, também, já não precisas.
Acabei o café e gulosamente lambi a colher. Melancólico e sorridente, pisquei o olho ao inimigo.
- Talvez não.
Levantei o meu corpo enfraquecido, descalcei-me para sentir todos os pés de relva e fui ter com eles.
Flash:
Deitados, na relva. Não precisávamos dizer nada.
original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/1 40560.html
O despertador tocou mil vezes, mas não me conseguia levantar, não conseguia sair do torpor, mantido por milhões de garras afiadas e invisíveis. Duas mortalhas, um cigarro, um isqueiro, droga, os únicos alimentos que suportavam o meu corpo débil. De mãos tremidas, procurei vos, meus caros companheiros; finalmente meus, o mundo desapareceu transformando nestas duas mãos firmes e seguras a preparar os ingredientes para mais um dia a flutuar na cidade fantasma, sem corpo e sem alma, vazio, morto, descansado. Sem espasmos e sem palavras, a escassa lucidez que ainda percorria a minha mente, agarrava-se com todas as forças do desespero a esta ultima flor selvagem e delicada,
Flash:
Na outra ponta da mesa, o penetra. Todos os dias estava lá em casa, chegando por volta da hora de jantar e saindo com o ultimo convidado.
- Não percebo, nunca senti isso.
- Porque alimentas constantemente o monstro. Mas se o deixas passar fome, verás.
- Nunca me aconteceu.
- Com os cogumelos notou-se mais, 10 milhões de vezes mais. Mas a descida é terrível.
“Terrível”, que palavra tão pobre para traduzir a violação do nosso cérebro pelo diabo e todos os seus demónios armados com os nossos piores medos e tormentos, pensava eu.
Como um autómato, seguia todos os passos do guião que tinha escrito para conseguir sobreviver.
Primeiro, tomava o meu café e fumava o meu primeiro Camel.
Segundo, voltava para casa fazer as minhas necessidades.
Terceiro, ia ao Multibanco verificar ainda tinha dinheiro para os meus vícios.
Quarto, carregava o telemóvel para verificar se ainda funcionava e se não tinha um problema que o impedisse de receber chamadas e mensagens.
Quinto, tomava o segundo café do dia, para voltar a activar o efeito do “comprimido” e fumava o segundo cigarro.
Sexto, voltava para casa.
O inimigo, bem que enfraquecido, ainda não se dava como vencido, tal uma hiena cobarde esperava – paciente e esfomeada – a minha morte. Na hiperactividade e na rotina encontrava os leais soldados que protegiam a minha retaguarda, criavam uma bolha inquebrável assenta sobre uma perpetua overdose de sons e imagens. Pela tampa, cada vez mais solta, do meu caixão, conseguia vislumbrar um mundo mascarado de vida; bebés sonhos com berros e olhos globulosos começavam a dar pontapés no meu ventre.
- Não vás!
- Tenho que ir.... Tenho que lá voltar....
- Mas sabes que ainda não desapareceram.
- Se calhar enganas-te...
O cheiro a sangue, apesar de enfraquecido, tinha sobrevivido; o contorno do corpo ainda estava pintado de branco no asfalto preto.
Flash:
Child in time do Live at Japan começou, era a minha musica, a ultima de cada uma das festas que organizávamos. Por respeito ou desinteresse, toda a gente se afastava, sobrando só o quadro pintado por aqueles gritos onde no final duma dança tribal chegava ao clímax. A C, tal como tinha entrado na minha vida, com o seu ar tímido e provocador, aproximou-se de mim e pegou na minha mão.
- Está fria. Deixa-me a aquecer contra o meu corpo.
- (silencio)
- É estranho, as nossa vidas são tão semelhantes. Será o destino?
- (silencio)
- Temos as mesmas dores, as mesmas paixões, os mesmos desejos...
Levantou a t-shirt e colocou a minha mão na sua anca.
- As tuas mãos continuam frias.
Lentamente, levou-me até o seu seio. Os nossos corpos juntaram-se, os nossos olhos fornicaram sem amor, libertando simples e selvagens desejos carnais. Introduziu a minha mão nas suas cuecas e ofereceu-lhe o seu sexo húmido.
- Não posso mas apetece-me.
- Apetece-me mas não posso.
Ainda enfraquecido pelo cheiro a sangue, não queria voltar para casa. Instintivamente, dirigi-me até café que costumava ser meu, sentei-me a mesa que costumava ser minha, pousei o minha mala na cadeira que costumava ser dela e esperei pelo empregado.
- É um café e um maço de Camel, como de costume?
- Obrigado.
Mas não apareceu. O balcão estava vazio, destruído, coberto de pó e de restos bolorentos de bolos. As cores tinham desaparecido, as mesas e as cadeiras - desfeitas e cobertas por teias - gizavam no chão. A minha volta os fantasmas bebiam os seus café quentes e fumavam os seus cigarros. Por respeito ou desinteresse, mantinham-se calados e não olhavam para mim. Tremendo, acendi um cigarro e fechei os olhos.
- O senhor deseja?
- Um café.
O sol queimava-me os olhos, mas não me importava. A leve brisa que percorria a esplanada - misturada com o agradável cheiro a torrada que emanava do café cheio de sorrisos e palavras - sabia-me a vida. No parque, crianças e cães dançavam como se fosse a minha ultima musica.
- Pelos vistos, também, já não precisas.
Acabei o café e gulosamente lambi a colher. Melancólico e sorridente, pisquei o olho ao inimigo.
- Talvez não.
Levantei o meu corpo enfraquecido, descalcei-me para sentir todos os pés de relva e fui ter com eles.
Flash:
Deitados, na relva. Não precisávamos dizer nada.
original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/1