diario_banal ([info]diario_banal) wrote,
@ 2006-08-23 09:23:00
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Cinderela
Acordei com o calor do sol a queimar-me a face, na véspera tinha-me esquecido de tapar a cabeça com os cartões. A minha boca e os meu olhos estavam como paralisados, presos por um colete de força moldado pelas crostas de pó e sangue a estalarem no que restava do meu rosto. Endireitei-me com o corpo dorido, flagelado e tatuado com marcas desta inhospede cama, deste banco ferrugento, este leito a 30cm da lama, uma tão curta distancia, a representação numérica do que restava da minha dignidade.

Frente aos meus olhos pintava-se o quadro da vida, pessoas a passear, mulheres de vestidos coloridos e primaveris, homens de músculos expostos. Partilhavam uma dança, um baile ao qual sabia que nunca mais iria ser convidado. Em parar, olhavam para mim com desprezo e nojo.
- Quem será ele?
- Temos mesmo que assistir a esta pouca vergonha!

Puxei os cartões gastos, dobrei-os cuidadosamente e arrumei-os no saco do lixo que me servia de mala, como se de um tesouro se tratasse. Levantei-me - a luz do sol violava o vazio que se tinham tornado os meus olhos - e estendi a mão. Ritual obsoleto, automático, repetido todos os dias, uma mão desesperadamente e sempre vazia.
- Va la! Faz-te a vida! Porcaria de pedinte!
- Cada um tem aquilo que merece!

Uma velha de luto com ar de compaixão severa olhou para mim, o cão dela rosnou. Pedi-lhe uma caneta, aproveitando a minha desatenção o cão mordeu o osso que dantes era a minha perna. A seguir uma carícia no seu fiel companheiro, ela deu-me a caneta.
- Fica com ela, ainda me contaminas!
Arranquei um bocado do meu cobertor e escrevi: "Só peço um pouco de amor. Obrigado."
Coloquei a placa em cima dos meus joelhos e voltei a estender a mão.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac..... as horas passavam, as pessoas passavam todas com o mesmo olhar, um comboio de nojo e desprezo..... tic, tac, tic, tac, tic, tac...... O manto escuro da noite tinha-se abatido sobre a rua Principal, já não havia ninguém. A poluição e as feridas não me deixavam ver as estrelas, só conseguia ver a luz das janelas, sorrisos, risos, televisão, um orgasmo, os talheres de prata a roçar pratos Vista-Alegre....... vislumbrava o meu passado e o futuro que jamais teria.

Olhei para a minha mão, estava vazia, excepto o teu cuspo, litros e litros de cuspo verde, viscoso, nojento, que tentava fugir-me entre os dedos, nem ele queria ficar...... nem ele.....

Voltei a tirar o cobertor da mala, estendi-me de braços cruzados sobre o meu peito e cobri-me, esperando nunca mais acordar....



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[info]filhadamae
2006-08-23 09:20 pm UTC (link)
já cá cantas...:)**!

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[info]emiliodobrasil
2006-08-24 03:49 pm UTC (link)
;) ***
welcom to the recylcling emilio world! lol

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[info]anamnese
2008-01-02 02:47 am UTC (link)
O amor não é coisa que se peça.

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[info]diario_banal
2008-01-02 02:32 pm UTC (link)
...

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