| diario_banal ( @ 2006-08-23 09:23:00 |
Romeu e Julieta
Tinha saído do trabalho. O meu corpo estava cansado, mas a minha mente depois de 12 horas atrofiada pelo tédio laboral estava de novo solta. Voltava para a cidade fantasma, esperavam lá por mim tijolos e cimento frios, o esqueleto duma casa que dantes tinha sido um lar. Prestes - mais uma vez - a acompanhar a noite de tortura, Ian Gillian já estava a chorar as lágrimas que não conseguiam sair de mim, quando ouvi musica la fora. Decorria mais uma baile ao pé desta masmorra leprosa. Festa municipal, Santos populares, angariação de fundos ou qualquer outro motivo, não passavam de pretextos para tentar despertar a cidade morta; o bailarico e a musica pimba eram o ópio deste povo. A mente débil, sai de casa, tendo mais uma vez como objectivo a carrinha dos comes-e-bebes brilhando de azul na minha noite escura. Procurava lá o álcool que em quantidade suficiente tomava o papel que o meu corpo já não desejava assumir; só bêbado conseguia dormir. Na noite sentava-me a maquina de escrever, com as palavras desenhava o teu sorriso nas folhas de papel branco. Com os caracteres deste alfabeto – agora obsoleto - desenhava os recantos do teu rosto que já não podia beijar. Edificava o altar dedicado ao nosso defunto amor, acompanhado pelo eco do doce som da tua voz.
- São 2 imperiais para já e mais 5 garrafas, mas não as abra.
- Têm a certeza?
- Sim... Não se preocupe, serão bem empregues em casa.
- Conversa de bêbado!
- É isso mesmo... Sou um bêbado...
Apareceste, estavas sozinha, o teu cabelo ondulado flutuava ao ritmo da musica. Algumas rugas tinham-se desenhado no teu rosto que já tinha perdido a selvagem inocência da infância. Os anos tinham passado, tínhamos perdido a tão querida ingenuidade; o teu sorriso – agora - era belo, apaziguador, ainda mais irresistível. Flutuando no mar das sombras, aproximaste de mim.
- Olá. Como vais?
- Estou morto.
- Não pareces morto, muito pelo contrario.
- Morri no nosso ultimo beijo.
- Estás diferente.
Algum do meu cabelo tinha perdido a guerra contra as leis da gravidade. O meu corpo estava cadavérico, não conseguia comer, não conseguia dormir; só a nicotina, as drogas e o álcool percorriam as minhas veias. Refugiava-me na noite escura, nela desapareciam os objectos; desesperadamente, fugia da luz do dia que despertava a morte e a insignificância deles por não serem tocados pelos teus dedos. Todas as noites travava-se uma luta da minha mente exausta contra o meu corpo que deliciava-se em não me oferecer o descanso que tanto precisava. Temia os sonhos tanto como os fantasmas que me acompanhavam quando estava acordado. Monstros felpudos de 4 cabeças, carinhosos que me abraçavam, me beijavam e me ofereciam os seus ombros para poder despejar as minhas sempiternas magoas. Aguardavam pelo sossego da minha alma, para depois transformar-se e pintar o teu rosto nos seus. Com a tua voz entoavam a marcha fúnebre do nosso amor, uma melodia macabra ritmada por sinos tenebrosos. Baratas e gafanhotos engravatados e vestidos de preto, passavam pelas minha pernas, formavam um cortejo interminável, uma fila que não parava de rir e vomitar os alimentos da loucura. O som estridente do despertador acordava-me, sempre a mesma hora. Não queria acordar. Porque acordar? Vezes sem fim reproduzia o sempiterno ritual, reprogramava o despertador para me dar mais meia hora, eram mais uns minutos entre a vida e a morte, mais uns minutos em que tentava queimar os dedos nos sonhos de morte. Como uma criança que não queria ouvir os conselhos da mãe, precisava de mutilar o corpo para me afastar definitivamente do fogo. Mas como uma criança demasiado respeitosa – palavra nobre que muitas vezes se usa para descrever a cobardia – não conseguia sucumbir ao encanto das chamas. Faltando só 20 minutos para ter que sair de casa, quebrava o jogo e enfiava-me no duche. Cortava a barba, golpeava-me, observava o sangue misturado com espuma que pingava no meu pescoço, enfiava os dedos nas feridas abertas e lambia o fluido encarnado enterrado no meu corpo. Procurava nele o sabor da vida, mas não sabia a nada. Ia trabalhar e sorria, precisava de sorrir porque precisava do dinheiro que em contrapartida me ofereciam. Só assim conseguia alimentar os vícios oludiam a minha presença neste mundo. Regressava a casa e o circo voltava a abrir as portas, todos os dias.
- Em que estás a pensar?
- Nada. Estou só a falar com fantasmas.
- Nos teus olhos mortos vislumbro o que sempre foste. Escondido por detrás do véu ainda vejo o que sempre amei.
- Não passam de farrapos e espantalhos.
- Amo-te. Ainda te amo... Nunca deixei de te amar...
Em silencio, fomos até a minha casa. Entramos. Os demônios do sexo e da luxúria invadiram-nos. Encostados a porta, as nossas mãos procuravam os nossos sexos, apoderavam-se e brincavam violentamente com eles. Rasgámos as roupas. Os beijos mutilavam os nossos corpos, deixavam rastos vermelhos e incandescentes, eternos como os que crivavam o meu coração. No chão possuimo-nos como dois animais ciosos. Não conseguíamos respirar, os nossos músculos arqueavam-se, gritávamos, uivávamos.
- Amo-te.
Não respondi, tinha os olhos fechados. Não conseguia, não queria ver o teu rosto extasiado.
Imaginava o meu sexo a transformar-se numa faca com a qual rasgava as tuas entranhas.
Via Lautreamont e Sade a foderem. Lautreamont não queria.
- A carne é fraca! Nunca serei fraco! Serei sempre um discípulo da força, do inferno.
- Só a cona é fraca. A idéia de procriação que nos impõe a igreja. Só estamos aqui para o prazer. Este é que nos é proibido. Este é que nos transforma em seres superiores, Deuses eternos e sem medos. O famoso segredo escondido na sumarenta maçã,
- Urina para a minha boca.
- O meu jantar foi de hortelã. Irás preferir as minhas fezes.
- Vou usar-te como um vulgo objeto. Vou humilhar-te como um escravo. Mas vais saber que só eu te poderei salvar. Vais lamber os meus pés enquanto seguro a tua vida entre as minhas mãos. Vais suplicar-me. Ai, sim, irei ter o prazer. Vou ser o teu Deus!
- Masturba-me enquanto me arrancas os testículos.
Atingimos um orgasmo cósmico e violento. Os nossos corpos eram as vitimas dum terramoto, dum furacão nunca antes conhecido. Parecia ter morrido, cai sobre ti, sem forças. Abraçaste-me durante minutos, horas, semanas, anos, a eternidade. Retomando algumas forças, com os nossos sexos ainda fundidos, levantei o meu tronco e olhei para os teus olhos. Hipnotizado, enfiei as minhas unhas no teu peito e arranquei o teu coração ainda cheio de vida e quente, beijei-o, esfreguei-o contra o meu rosto e voltei a beija-lo até sentir as tuas ultimas forças a abandonar-te.
Levantei-me e fui a garagem. Coloquei o teu coração na mesa. Com todas as forças da minha alma louca esfaqueei-o com pregos e chaves de fendas. Batia e batia mais, sem parar. Não conseguia controlar os meus membros. Não conseguia parar de martelar com um movimento histérico e sem fim. E finalmente desmaiei. Foi um coma sem sonhos, vazio, só aquela luz branca e quente que chamava por mim. Entorpecido, acordei, levantei-me e olhei para o pedaço de carne informe e agonizante na mesa. Peguei nele e voltei para a sala. O teu corpo estava lá estendido, o tapete estava cheio de sangue. Parecias uma sereia aconchegada no meio deste mar vermelho. Voltei a colocar o teu coração no teu peito. Pela primeira vez vi o teu corpo sem mascaras, puro como nunca o tinha visto antes. Pela ultima vez, pousei o meu corpo por cima do teu e amei-te. Fixei os teu olhos e – dentro de ti - finalmente consegui chorar e dizer-te:
- Amo-te.
Entrei de novo na garagem e peguei numa corda. Delicadamente enrolei-a a volta do meu pescoço e fui para a varanda. Estava de dia, os pássaros calaram-se, olhei para o sol, desafiei-o até queimar os olhos e enforquei-me.
original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/1 20333.html
Tinha saído do trabalho. O meu corpo estava cansado, mas a minha mente depois de 12 horas atrofiada pelo tédio laboral estava de novo solta. Voltava para a cidade fantasma, esperavam lá por mim tijolos e cimento frios, o esqueleto duma casa que dantes tinha sido um lar. Prestes - mais uma vez - a acompanhar a noite de tortura, Ian Gillian já estava a chorar as lágrimas que não conseguiam sair de mim, quando ouvi musica la fora. Decorria mais uma baile ao pé desta masmorra leprosa. Festa municipal, Santos populares, angariação de fundos ou qualquer outro motivo, não passavam de pretextos para tentar despertar a cidade morta; o bailarico e a musica pimba eram o ópio deste povo. A mente débil, sai de casa, tendo mais uma vez como objectivo a carrinha dos comes-e-bebes brilhando de azul na minha noite escura. Procurava lá o álcool que em quantidade suficiente tomava o papel que o meu corpo já não desejava assumir; só bêbado conseguia dormir. Na noite sentava-me a maquina de escrever, com as palavras desenhava o teu sorriso nas folhas de papel branco. Com os caracteres deste alfabeto – agora obsoleto - desenhava os recantos do teu rosto que já não podia beijar. Edificava o altar dedicado ao nosso defunto amor, acompanhado pelo eco do doce som da tua voz.
- São 2 imperiais para já e mais 5 garrafas, mas não as abra.
- Têm a certeza?
- Sim... Não se preocupe, serão bem empregues em casa.
- Conversa de bêbado!
- É isso mesmo... Sou um bêbado...
Apareceste, estavas sozinha, o teu cabelo ondulado flutuava ao ritmo da musica. Algumas rugas tinham-se desenhado no teu rosto que já tinha perdido a selvagem inocência da infância. Os anos tinham passado, tínhamos perdido a tão querida ingenuidade; o teu sorriso – agora - era belo, apaziguador, ainda mais irresistível. Flutuando no mar das sombras, aproximaste de mim.
- Olá. Como vais?
- Estou morto.
- Não pareces morto, muito pelo contrario.
- Morri no nosso ultimo beijo.
- Estás diferente.
Algum do meu cabelo tinha perdido a guerra contra as leis da gravidade. O meu corpo estava cadavérico, não conseguia comer, não conseguia dormir; só a nicotina, as drogas e o álcool percorriam as minhas veias. Refugiava-me na noite escura, nela desapareciam os objectos; desesperadamente, fugia da luz do dia que despertava a morte e a insignificância deles por não serem tocados pelos teus dedos. Todas as noites travava-se uma luta da minha mente exausta contra o meu corpo que deliciava-se em não me oferecer o descanso que tanto precisava. Temia os sonhos tanto como os fantasmas que me acompanhavam quando estava acordado. Monstros felpudos de 4 cabeças, carinhosos que me abraçavam, me beijavam e me ofereciam os seus ombros para poder despejar as minhas sempiternas magoas. Aguardavam pelo sossego da minha alma, para depois transformar-se e pintar o teu rosto nos seus. Com a tua voz entoavam a marcha fúnebre do nosso amor, uma melodia macabra ritmada por sinos tenebrosos. Baratas e gafanhotos engravatados e vestidos de preto, passavam pelas minha pernas, formavam um cortejo interminável, uma fila que não parava de rir e vomitar os alimentos da loucura. O som estridente do despertador acordava-me, sempre a mesma hora. Não queria acordar. Porque acordar? Vezes sem fim reproduzia o sempiterno ritual, reprogramava o despertador para me dar mais meia hora, eram mais uns minutos entre a vida e a morte, mais uns minutos em que tentava queimar os dedos nos sonhos de morte. Como uma criança que não queria ouvir os conselhos da mãe, precisava de mutilar o corpo para me afastar definitivamente do fogo. Mas como uma criança demasiado respeitosa – palavra nobre que muitas vezes se usa para descrever a cobardia – não conseguia sucumbir ao encanto das chamas. Faltando só 20 minutos para ter que sair de casa, quebrava o jogo e enfiava-me no duche. Cortava a barba, golpeava-me, observava o sangue misturado com espuma que pingava no meu pescoço, enfiava os dedos nas feridas abertas e lambia o fluido encarnado enterrado no meu corpo. Procurava nele o sabor da vida, mas não sabia a nada. Ia trabalhar e sorria, precisava de sorrir porque precisava do dinheiro que em contrapartida me ofereciam. Só assim conseguia alimentar os vícios oludiam a minha presença neste mundo. Regressava a casa e o circo voltava a abrir as portas, todos os dias.
- Em que estás a pensar?
- Nada. Estou só a falar com fantasmas.
- Nos teus olhos mortos vislumbro o que sempre foste. Escondido por detrás do véu ainda vejo o que sempre amei.
- Não passam de farrapos e espantalhos.
- Amo-te. Ainda te amo... Nunca deixei de te amar...
Em silencio, fomos até a minha casa. Entramos. Os demônios do sexo e da luxúria invadiram-nos. Encostados a porta, as nossas mãos procuravam os nossos sexos, apoderavam-se e brincavam violentamente com eles. Rasgámos as roupas. Os beijos mutilavam os nossos corpos, deixavam rastos vermelhos e incandescentes, eternos como os que crivavam o meu coração. No chão possuimo-nos como dois animais ciosos. Não conseguíamos respirar, os nossos músculos arqueavam-se, gritávamos, uivávamos.
- Amo-te.
Não respondi, tinha os olhos fechados. Não conseguia, não queria ver o teu rosto extasiado.
Imaginava o meu sexo a transformar-se numa faca com a qual rasgava as tuas entranhas.
Via Lautreamont e Sade a foderem. Lautreamont não queria.
- A carne é fraca! Nunca serei fraco! Serei sempre um discípulo da força, do inferno.
- Só a cona é fraca. A idéia de procriação que nos impõe a igreja. Só estamos aqui para o prazer. Este é que nos é proibido. Este é que nos transforma em seres superiores, Deuses eternos e sem medos. O famoso segredo escondido na sumarenta maçã,
- Urina para a minha boca.
- O meu jantar foi de hortelã. Irás preferir as minhas fezes.
- Vou usar-te como um vulgo objeto. Vou humilhar-te como um escravo. Mas vais saber que só eu te poderei salvar. Vais lamber os meus pés enquanto seguro a tua vida entre as minhas mãos. Vais suplicar-me. Ai, sim, irei ter o prazer. Vou ser o teu Deus!
- Masturba-me enquanto me arrancas os testículos.
Atingimos um orgasmo cósmico e violento. Os nossos corpos eram as vitimas dum terramoto, dum furacão nunca antes conhecido. Parecia ter morrido, cai sobre ti, sem forças. Abraçaste-me durante minutos, horas, semanas, anos, a eternidade. Retomando algumas forças, com os nossos sexos ainda fundidos, levantei o meu tronco e olhei para os teus olhos. Hipnotizado, enfiei as minhas unhas no teu peito e arranquei o teu coração ainda cheio de vida e quente, beijei-o, esfreguei-o contra o meu rosto e voltei a beija-lo até sentir as tuas ultimas forças a abandonar-te.
Levantei-me e fui a garagem. Coloquei o teu coração na mesa. Com todas as forças da minha alma louca esfaqueei-o com pregos e chaves de fendas. Batia e batia mais, sem parar. Não conseguia controlar os meus membros. Não conseguia parar de martelar com um movimento histérico e sem fim. E finalmente desmaiei. Foi um coma sem sonhos, vazio, só aquela luz branca e quente que chamava por mim. Entorpecido, acordei, levantei-me e olhei para o pedaço de carne informe e agonizante na mesa. Peguei nele e voltei para a sala. O teu corpo estava lá estendido, o tapete estava cheio de sangue. Parecias uma sereia aconchegada no meio deste mar vermelho. Voltei a colocar o teu coração no teu peito. Pela primeira vez vi o teu corpo sem mascaras, puro como nunca o tinha visto antes. Pela ultima vez, pousei o meu corpo por cima do teu e amei-te. Fixei os teu olhos e – dentro de ti - finalmente consegui chorar e dizer-te:
- Amo-te.
Entrei de novo na garagem e peguei numa corda. Delicadamente enrolei-a a volta do meu pescoço e fui para a varanda. Estava de dia, os pássaros calaram-se, olhei para o sol, desafiei-o até queimar os olhos e enforquei-me.
original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/1