diario_banal ([info]diario_banal) wrote,
@ 2006-08-23 09:22:00
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Nunca se sabe
Chegámos os três ao local indicado pelos cartazes, sendo a sua descoberta facilitada pela fila de mais de quatro kilometros de carros estacionados. A estrada de terra batida parecia uma arvore de natal enfeitada com estes veículos multicolores. Sinalizados cuidadosamente – nas suas partes inferiores - com neons de todas as cores dum arco-íris.
- Nunca se sabe, é que estes gajos que andam na estrada todos bêbados não vêm rigorosamente nada. Mais vale prevenir que remediar!
A preocupação cívica - quase bíblica – dos seus donos ainda se tornava mais flagrante, ao inspeccionar discretamente o interior destes cavalos de ferro. Não faltavam terços pendurados no retrovisor interior, nem as almofadas colocadas na parte de traz, peças preciosas feitas da mais delicada seda cor de rosa, emoldurada em renda branca e com uma mensagem – pintada de branco - de clara devoção a nossa bandeira: “Amo-te”.

A festa estava ao rubro. Em cima do palco improvisado – provavelmente constituído por 2 atrelados de tractores – a banda parecia estar em transe. Um Ray Charles branco e com risca ao meio entusiasmava-se atrás do teclado. O baterista, também cego, com pança vitima de excesso de cerveja absorvido durante os ensaios, martelava freneticamente o seu instrumento composto de 3 peças. O guitarrista, visivelmente um dos poucos sobreviventes dos seguidores do nosso amigo Axl Rose, bandolete a condizer com as calças em Lycra cor-de-rosa, dedilhava suavemente a sua Fly V. A vocalista aos pulos - mini-saia dourada e top provocante pousados sobre um corpo que visivelmente não tinha sido desenhado por Deus para tais adereços – motivava e seduzia o publico com a sua voz Agata.
- Se gostas do que é meu? Toma! Toma! Vá lá pessoal todos em coro! Que eu gosto o que é teu! Toma! Toma! Não estou a ouvir nada!

O publico era numeroso, parecia que toda a população da Cidade Fantasma tinha sido transportada até esta bucólica praça. A importância do evento podia ser facilmente quantificada pelo peso de brilhantina e maquilhagem aqui presentes. Visto de cima, desenhava-se um templo Stone-Age humano. No seu centro, casais reais ou ocasionais, agitavam freneticamente os seus corpos. Um patchwork multicolor, homenagem a alegria e a tolerância; vislumbravam-se pares velhos, novos, gordos, magros, novos e velhos misturados, pares homossexuais. Apesar de notar – curiosamente - que só a vertente lésbica parecia estar aqui representada. Uma poeira magica envolvia-os, assemelhava-se a uma constelação de estrelas cinzentas com cheiro a estrume que os unia e fundia, um betão composto por brita saltitante com o qual se erigia um santuário dedicado aos Deuses do Amor.
- É pena, não conseguimos dinheiro suficiente para alugar uma maquina de fumo. Isto é que era bombar! Aposto que até a TVI vinha! - ouvi a minha esquerda.
- Dá-lhe com força Ágata!
- Chama-se Simone! Simone....

A pouco mais de um metro de distância, um cordão formava-se. Calças de ganga vincadas e perfeitamente engomadas, camisas Sacoor, sapatos cobertos de terra, cerveja na mão esquerda e Malboro na mão direita, pareciam ser o traje obrigatório desta segunda fila de guerreiros. Perdidas no meio desta legião, uma dúzia de Anjos femininos, visivelmente com alguns problemas de expressão e de coordenação motora, seguravam-se a este mastros seguros e firmes. Apresentavam um espectáculo que colocava - a um olhar atento - serias duvidas acerca da não presença de sexo nestas figuras que povoam o Paraíso.
- Ca-ca-calma! Já va-va-vamos! Chamas-te co-co-como? Já não me-me lembro! eh-eh.
- Vi-vi-vi-vi-a-a-a-ne-ne! Que-que-rido!
Tal como o traje, o perfume também devia ser regulamentado. Emanava, nesta área, uma fragrância composta por – sem proporções facilmente perceptíveis – cerveja morna, sardinhas, bifanas, mostarda, suor, vinho e uns - sempre refrescantes – arrotos. Apesar de diferente, a movimentação deste segundo grupo não tinha nada a invejar a do que compunha a pista de dança. Outras danças eram aqui praticadas. O Deus do engate era aqui venerado mais do que em qualquer outra parte. Os maravilhosos anjos despojados das suas asas encontravam-se protegidos por vários guarda-costas que as baptizavam com novos nomes.
- Heiiiiiiiiiii Carapau!
- Então Bomboca, está tudo bem?
- És boa como o milho!
Provas irrefutáveis que estávamos perante uma plateia apreciadora de desportos náuticos ou conhecedora dos mais íntimos segredos da botânica. Na fronteira com os dançarinos encontravam-se os mais corajosos. Não temendo pelas suas vidas - no final de cada canção – abandonavam as suas espadas incandescentes, vendidas a sensivelmente 3 euros o pacote de 20 e tendiam delicadamente os seus braços poderosos em direcção as metades femininas dos pares que se separavam na pista de dança.
- Então! Já me prometeste duas vezes!
- Desculpa mas estou cansada. Não vai dar.
- Vais ver se estas cansada! 'tas-me a chamar de parvo ou que? Olha que ao outro, o loiro de cabelo encaracolado, não lhe dizes que estas cansada! Porca!
- Calma ai meu! Se diz não quer, deixa-a em paz! Olha esta aqui a R que não se importava de dançar contigo!
- Bola! Aquele tijolo! Só com muita mais cerveja em cima do pelo!
Deliciosamente, sentia-se aqui um profundo respeito pela tendências sexuais de cada um e os pares lésbicos nunca eram importunados. Curiosamente, podíamos notar uma certa uniformidade na fisionomia rechonchuda e sorridente destas simpáticas – como se costuma dizer - meninas. Seria esta a prova do velho ditado francês acerca do Amor: “Qui se ressemble s'assemble”?

A margem destes dois grupos, com trocas posicionais pontuais – para reabastecimento ou descanso - tínhamos um segundo cordão. Posicionado estrategicamente ao pé dos comes-e-bebes, pesadamente encostados aos balcões (ou por vezes deitados até) tínhamos calças extremamente enlameadas, camisas aos xadrez e botas. Com o rosto rosado, miravam as bailarinas.
- Já bebi mais de 20 imperiais! Bem me podes oferecer uma agora!
- Lamento mas é contra a politica da casa.
- Vá lá meu!
- Então J estas bom? Há quanto tempo que não te via! Toma lá um bejeca, é oferta da casa.
Misturados o este endiabrado bem que parado grupo tínhamos os verdadeiros oficiais, os Donos dos Carros. Pesava neles um ar triste, mas responsável de quem não podia beber. Soldados solitários e tímidos no meio da noite escura, demasiado importantes por serem importunados durante a semana para sair na Cidade Fantasma. Só eram chamados em casos excepcionais, quando a guerra era travada alem fronteiras. Com vénias dorsais e silenciosas, a participação a deboche e desgraça dos outros grupos era-lhes impedida. As suas posições, na hierarquia deste tipo de eventos, não lhes permitia misturar-se com o vulgo rebanho. Tinham que sair como entravam. Puros!
- O verdaeiro heroi nunca suja as mãos e nem sequer fica despenteado!

Com o F e o M, dirigimo-nos até as tascas. Era a primeira vez deles, por isso tínhamo-nos preparados devidamente em casa com alimentos espirituais frescos e directamente importados de Holanda. As nossas gargantas estavam secas, precisávamos beber. Durante estes últimos três dias não tínhamos parado de rir, as nossas bocas estavam exaustas, tínhamos cambras a volta do nossos olhos ligeiramente avermelhados. Mas esta noite era a ultima e não nos sentíamos com vontade nenhuma de abrandar o ritmo. Encostados a bancada, aguardávamos o melhor momento para entrar no baile. Quando de repente a musica parou. Toda gente parou. Toda a gente se virou para a entrada do recinto. Incrédulos e surpreendidos também olhamos.

Tinha acabado de entrar um Pirilampo Magico com 2 metros de altura, metade azul e metade roxa. Sobre os seus ombros estava pousado um casaco de pele comprido; pela espessura do pêlo e a sua cor dourada podia-se concluir que algumas raposas tinham sido sacrificadas para confeccionar esta peça do maior encanto. Pendurados ao seu pescoço, segurados por duas correntes imponentes em ouro, encontrava-se o símbolo da comunidade que tanto tinha ajudado este povo na compra de carros de luxo. Feita de ouro puro, incrustado de dezenas de pedras das mais preciosas, devia pesar uns 5 kilos. A esquerda e a sua direita desta ilustre figura, duas deliciosas meninas asiáticas com provavelmente pouco mais de 18 anos. Vestiam micro-saias prateadas que deixavam distinguir umas cuecas de pérolas quando caminhavam. As suas pernas intermináveis, acabavam com sapatos de salto alto, também eles prateados. Os seus peitos estavam unicamente tapados por um blazer branco e desapertado. Chapéus texanos - também eles prateados - cobriam-lhes a cabeças. Ao ritmo das ondulações das suas ancas, a abertura dos olhos do publico sintonizava-se com o aparecimento e desaparecimento do quadro pintado de pérolas e extremidades rosadas.

O Stonehenge, no preciso momento desta aparição abriu-se ao meio, tal o Mar Vermelho a oferecer-se a Moises. Detrás do palco, saltou um homem, nervoso, que se moveu em direcção ao recém chegado profeta.
- É o Presidente da Câmara! Coitado! Foi ele que organizou tudo! - Ouvi á minha esquerda.
- E chegou o Pappy Chulo! - Ouvi a minha direita.
- Vai ter que lhe dar metade da receita, senão.... - Ouvi á minha esquerda.
- Senão o quê? - Perguntei.
- Armagedon! Armagedon! Deus é impiedoso para quem não respeita o seu filho!
- Não me digam que acreditam que o filho de Deus seja um Pirilampo! - Comentei.
- Filho ou não, têm uma legião de seguidores, uns psicopatas com sede de sangue, a espera dum simples sinal para despertar.
- Temos que ser solidários e ajudar os nossos irmãos.
- Ou iremos sofrer a vingança de Deus!

Num movimento relâmpago, surgiram de trás do palco 10 Ninjas BDSM, vestidos de preto e mascarados. Aproximaram-se do Pirilampo e agarraram-no. O baterista principiou então um ritmo índio, seguido pela vocalista que entoou um cantos tribais e guerreiros, com a sua mão direita tapava e destapava freneticamente a sua boca.
- Hu hu hu.
A volta do preso, formou-se um circulo, as danças de engate foram substituídas por danças de guerra. Num movimento de clara devoção, imitavam os cantos da vocalista.
- Agora ela deve estar toda contente! Estão todos em coro. - disse-me o M.
Pediam a ajuda do Grande Manitu, invocavam as forças dos espíritos da natureza.
- Griiiiiiiiii Hu hu hu Griiiiiiiiii hu hu .
O profeta foi então preso e amarrado a um poste eléctrico. A dança não parava e os cantos aumentavam de intensidade. Um velho feiticeiro, calças justas de pele preta e tronco nu apareceu. Em cima da sua cabeça – emoldurada com longos cabelos pretos - pousava um chapéu feito com penas de faisão, juntas com o auxilio de fio de ouro.
- Tentaste roubar os nossos irmãos! Tentaste tirar-nos a nossa terra! Por isso iras ser castigado!
- Morte ao traidor!
- O teu “scalp” será a nossa recompensa. O teu sangue irá curar a nossa dor e satisfazer a nossa sede de vingança.
- Scalp! Scalp! Scalp!
Como que chamado pela multidão em delírio, apareceu a direita do feiticeiro, um homem de bata branca, toca alta e branca. Parecia ter uns 70 anos, a sua voz tremia, era difícil de percepção, talvez pelo efeito de Parkinson ou de qualquer outro tipo de doença que infelizmente parece bater a porta de todos os nossos caros sábios de terceira idade (indicio infeliz de outra visita, o tão temido companheiro de capa preta e foice enferrujada).
- Sousa! Sousa! - gritava o publico em transe.
Na sua mão segurava firmemente - embora tremendo ligeiramente – uma faca larga e com pelo menos 30 centímetros. Brilhava e reflectia as luzes da festa como se de uma bola de espelhos se tratasse. O feiticeiro olhou para ele com ar de pena.
- Coitado. Esta guerra já não é tua. Poupa os teus esforços, a luta dos sábios é contra os penicos. Deixa esta para nós.
Tirou-lhe a faca da mão.

Num movimento rotativo, certeiro e cirúrgico, abriu uma entrada com 2 centímetros de profundidade sobre todo corpo do Pirilampo Magico. Ao grande espanto do publico em delírio, o gigante felpudo não disse nada. Afinal, não passava dum homem com aproximadamente 50 anos e careca, vestido com um fato de Carnaval. O seu rosto era extremamente disgracioso, pêlos cresciam-lhe em cima do nariz, rugas profundas desenhavam ondas na sua testa, devia pesar uns 120 kilos.
- Era a única hipótese que tinha com as miúdas. Ninguém resiste ao apelo dum Pirilampo.
Ainda atortoado pelos acontecimento, mas com a mente sempre desperta para qualquer bom negocio, o Presidente da Camara aproximou-se. Tirou o fato da vitima e colocou-o e cima dos ombros. Num gesto teatral e magnânimo, soltou e libertou o preso. Este fugiu, nu, voltou ao anonimato do qual se tinha tentado livrar com tanto esforço e suor. As suas duas acompanhantes, trabalhadoras dedicadas, empenhadas e respeitosas da hierarquia, colaram-se imediatamente ao novo patrão. O povo curvou-se perante o seu novo líder.
- Viva o Pirilampo! Viva o Presidente!

A festa retomou, com se nada tivesse acontecido. Fomos embora, dirigimo-nos para a praia. Queríamos pela última vez ouvir os cantos das ondas. Os nossos risos tinham um sabor a Orange Bud. No dia seguinte, fizemos as suas malas e levei-os para o aeroporto. No caminho, paramos para comprar um Pirilampo Magico cada um.
- Nunca se sabe.

original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/123515.html



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[info]e_toon
2006-08-23 09:33 am UTC (link)
:-)))))


Ca fait plaisir de lire une histoire entière.

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[info]diario_banal
2006-08-23 11:23 am UTC (link)
merci....
la censure est passée par ce texte! :D
certains passages étaient vraiment too much! desormais il est beaucoup plus subtil! lol

jes uis en ttrainde bosser sur celui du mirroir, je pense que tu as parfaitement raison quant à la conclusion.... mais il fait parti de ceux qui font mal quand je les relie...

porta-te... e espero que tudo de resolva por ai... se precisares...
uma abraço!

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[info]e_toon
2006-08-23 01:26 pm UTC (link)

Esta passando, mas não veijo bem por donde ;-)

Acho que tenho que provocar qualquer coisa para chamar ou anestesiar os sentimentos, e ter otro ponto de vista.

O problema é que tenho a impreção que estou a percurar qualquer coisa, e não sei bem porque !

Obrigado pelo ajuda.

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[info]emiliodobrasil
2006-08-23 05:46 pm UTC (link)
de nada.... é bem menos do que gostaria...

mas, sem querer ser insultuoso, fico feliz por terem um comportamento maturo, tanto um como o outro... acredita qualquer seja o resultado, pelo menos saberas o que se passou e que não existem equivocos.... o pior mesmo que pode acontecer e que acaba sempre por arrebentar...

pelo dialogo chegaras ao melhor para ti....

profite de cette perche, rien ne se perd, rien ne se ganhe tout se transforme...

um abraço!

PS: e que tal vires ou virem para portugal definitivamente! LOL

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[info]e_toon
2006-08-24 09:10 am UTC (link)
;-) Quem sabe ?

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[info]emiliodobrasil
2006-08-24 03:52 pm UTC (link)
lol....

quem sabe o futuro pode estar cheio de surpresas.... enquanto formos felizes qualquer sitio pode servir.....

good luck

abraço

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[info]anamnese
2008-01-02 02:30 am UTC (link)
Gostei da descrição da entrada em cena do Pirilampo e suas texanas, e do assalto dos ninjas BDSM, claro :D

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[info]diario_banal
2008-01-02 03:58 pm UTC (link)
:DDDD

sinceramnte é dos textos dos quais mais me orgulho... tanto pelo conteudo que as condicionantes da escrita...

e diz la que a primeira parte não te lembro a disco night do outro dia! :D

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(Reply to this) (Parent)(Thread)


[info]anamnese
2008-01-09 11:29 pm UTC (link)
lol mais ou menos :p

(Reply to this) (Parent)(Thread)


[info]diario_banal
2008-01-11 06:47 pm UTC (link)
ya, este pessoal das caldas, é uma cambada de conas finesse... nada vale uns belos tasqueiro tunning! :D

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(Reply to this) (Parent)

then unoriginal future
(Anonymous)
2008-08-27 04:03 pm UTC (link)
special proficiency virtually territory

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