| diario_banal ( @ 2006-08-26 18:16:00 |
Passeando pela floresta das maravilhas
updated:26/08/2006 - 19h16
Calça da moda, camisa da moda, sapato da moda, estava no café do costume, a hora do costume, na mesa do costume. Tinha acabado de fumar um Camel, acabado de beber de penalti o café quente, salvaguardando - como de costume - um fundo para beber antes de sair. Em cima dos meus joelhos o mesmo livro, a mesma pagina aberta a duas semanas, tentando ler. Os meus olhos passeavam pela pagina, perdidos, viajavam pelos vales criados pelas palavras, hipnotizados por esta paisagem a preto e branco.
Na outra ponta da sala, sorria aquela rapariga de corpo invisível, escondido por roupa informe, sem sabor, com 3 ou 4 tamanhos a mais; uma neutralidade que realçava ainda mais o seu rosto, puro, angelical.
Uma Jocunda de cabelo comprido, preto, quase cigana. Perdia-me todos os dias naqueles olhos pretos e cristalinos, um lago misterioso aconchegante e caloroso, morriam lá todos os meus demônios, uma alquimia divina transformava os seus gritos num chilrear perfumado.
Pela primeira vez, cruzaram-se os nossos olhares, e não conseguiram mais separar-se. Não sentia vergonha nem incomodo, mas uma paz infinita. Levantou-se e sentou-se ao pé de mim.
- Já há muitos dias que te vejo aqui sentado, a ler, perdido. Perdido nos meus olhos. Quem es?
- Não sei, talvez tu tenhas a resposta.
- Mas não te conheço, apenas este olhar vazio, estas mãos agarradas a este livro, o som da tua voz quando pedes um café. Mas isso não me diz quem es? Não passa dum quadro pintado pelo fumo dos teus cigarros.
- Então já me conheces. A partir de agora, entraremos numa ilusão criada pela palavras, uma ilusão criada pelo tempo.
- Mas qual é o interesse de alimentar ilusões ou sonhos? Tens medo da realidade? Queres fugir dela? Porque mentir?
- Mas qual é a diferença entre a mentira e a verdade?
Os seus olhos penetraram os meus, fundiram-se, uniram-se as nossas almas, mergulhamos juntos naquele lago celeste. Pegou na minha mão, encostou-a ao seu peito, com a outra levantou suavemente o meu rosto, inclinou-se e beijou-me.
- Ontem vi-te no parque. Com o mesmo cigarro que nunca acaba, com as mesmas paginas que nunca se viram. Parecias hipnotizado pelas arvores.
- Estava a ver duas freiras. Saltavam de ramo em ramo, cravavam neles as suas garras afiadas. As arvores não paravam de gritar. Seguravam nas suas mãos uns terços vivos, Eram uns ratos felpudos e gordos, empalados, crucificados, segurados pelos rabos. Quando paravam - suspensas no ar - beijavam-se. Num vai-e-vem pornográfico, as suas línguas trocavam saliva esverdeada e fumegante. Com baba a escorrer pelo corpo todo, atingiam o orgasmo ao esfregar os terços felpudos a cara das crianças assustadas. Gritavam “Deus é Amor”, atiravam-se as velhas e com uma voz cavernosa gemiam “Deixem vir até nos as criancinhas”
- Não as vi.
- Aproximaram-se de mim, sentando-se uma de cada lado. Acariciaram-me o corpo todo, sentia as suas unhas a arranhar-me, no meu pescoço deslizavam as suas línguas quentes e húmidas. Uma mistura de prazer masoquista e de medo invadia-me. Suavemente, as 4 mãos desabotoaram as minhas calças e penetraram as minhas cuecas. Com violência ergueram o meu sexo enquanto iam rasgando a pele dos meus testículos. Mostravam-no aos passantes, como se de uma estatueta se tratasse, “Vejam a semente do Pecado! Satanás! Olhem para o Diabo entre estas pernas!”. Estrangularam-no, rasgaram o apêndice, transformando-o num vulgo pedaço de pele e esponja inerte. De repente, cravaram na minha jugular os seus dentes afiados. O jacto fumegante de sangue desenhou nos seus rostos pinturas tribais, pinturas de guerra. Partilharam o sangue do pecado, lambiam, bebiam, beijavam-se, recriando uma Ultima Ceia Morbida.
- Não as vi.
- Não existe verdade absoluta, cada um de nós têm a sua, composta por mil rostos.
Apertou a minha mão com mais força contra o seu coração, conseguia sentir todas as moléculas quentes do seu sangue a atravessar-lhe o peito. Fixou os meus olhos e sorriu. Saímos do café e fomos para a minha casa.
No silencio, nos nossos olhos, na pureza, amamo-nos todos os dias, como naquele primeiro encontro. Alimentávamos o nosso circo com as palavras. Cúmplices nas mentiras, cúmplices na verdades, continuávamos a viver a farsa da vida, mascarada de felicidade, alegria ou tristeza.
Acordei, a cama estava toda húmida, não tinha passado dum sonho. Senti duas feridas no meu pescoço, um leve fio de sangue seco no meu peito. Virei-me e olhei para ti. Pela ultima vez, abracei-te, cansado de nunca ter visto os teus olhos. No dia seguinte, fui de novo ao café e esperei pela minha Jocunda.
updated:26/08/2006 - 19h16
Calça da moda, camisa da moda, sapato da moda, estava no café do costume, a hora do costume, na mesa do costume. Tinha acabado de fumar um Camel, acabado de beber de penalti o café quente, salvaguardando - como de costume - um fundo para beber antes de sair. Em cima dos meus joelhos o mesmo livro, a mesma pagina aberta a duas semanas, tentando ler. Os meus olhos passeavam pela pagina, perdidos, viajavam pelos vales criados pelas palavras, hipnotizados por esta paisagem a preto e branco.
Na outra ponta da sala, sorria aquela rapariga de corpo invisível, escondido por roupa informe, sem sabor, com 3 ou 4 tamanhos a mais; uma neutralidade que realçava ainda mais o seu rosto, puro, angelical.
Uma Jocunda de cabelo comprido, preto, quase cigana. Perdia-me todos os dias naqueles olhos pretos e cristalinos, um lago misterioso aconchegante e caloroso, morriam lá todos os meus demônios, uma alquimia divina transformava os seus gritos num chilrear perfumado.
Pela primeira vez, cruzaram-se os nossos olhares, e não conseguiram mais separar-se. Não sentia vergonha nem incomodo, mas uma paz infinita. Levantou-se e sentou-se ao pé de mim.
- Já há muitos dias que te vejo aqui sentado, a ler, perdido. Perdido nos meus olhos. Quem es?
- Não sei, talvez tu tenhas a resposta.
- Mas não te conheço, apenas este olhar vazio, estas mãos agarradas a este livro, o som da tua voz quando pedes um café. Mas isso não me diz quem es? Não passa dum quadro pintado pelo fumo dos teus cigarros.
- Então já me conheces. A partir de agora, entraremos numa ilusão criada pela palavras, uma ilusão criada pelo tempo.
- Mas qual é o interesse de alimentar ilusões ou sonhos? Tens medo da realidade? Queres fugir dela? Porque mentir?
- Mas qual é a diferença entre a mentira e a verdade?
Os seus olhos penetraram os meus, fundiram-se, uniram-se as nossas almas, mergulhamos juntos naquele lago celeste. Pegou na minha mão, encostou-a ao seu peito, com a outra levantou suavemente o meu rosto, inclinou-se e beijou-me.
- Ontem vi-te no parque. Com o mesmo cigarro que nunca acaba, com as mesmas paginas que nunca se viram. Parecias hipnotizado pelas arvores.
- Estava a ver duas freiras. Saltavam de ramo em ramo, cravavam neles as suas garras afiadas. As arvores não paravam de gritar. Seguravam nas suas mãos uns terços vivos, Eram uns ratos felpudos e gordos, empalados, crucificados, segurados pelos rabos. Quando paravam - suspensas no ar - beijavam-se. Num vai-e-vem pornográfico, as suas línguas trocavam saliva esverdeada e fumegante. Com baba a escorrer pelo corpo todo, atingiam o orgasmo ao esfregar os terços felpudos a cara das crianças assustadas. Gritavam “Deus é Amor”, atiravam-se as velhas e com uma voz cavernosa gemiam “Deixem vir até nos as criancinhas”
- Não as vi.
- Aproximaram-se de mim, sentando-se uma de cada lado. Acariciaram-me o corpo todo, sentia as suas unhas a arranhar-me, no meu pescoço deslizavam as suas línguas quentes e húmidas. Uma mistura de prazer masoquista e de medo invadia-me. Suavemente, as 4 mãos desabotoaram as minhas calças e penetraram as minhas cuecas. Com violência ergueram o meu sexo enquanto iam rasgando a pele dos meus testículos. Mostravam-no aos passantes, como se de uma estatueta se tratasse, “Vejam a semente do Pecado! Satanás! Olhem para o Diabo entre estas pernas!”. Estrangularam-no, rasgaram o apêndice, transformando-o num vulgo pedaço de pele e esponja inerte. De repente, cravaram na minha jugular os seus dentes afiados. O jacto fumegante de sangue desenhou nos seus rostos pinturas tribais, pinturas de guerra. Partilharam o sangue do pecado, lambiam, bebiam, beijavam-se, recriando uma Ultima Ceia Morbida.
- Não as vi.
- Não existe verdade absoluta, cada um de nós têm a sua, composta por mil rostos.
Apertou a minha mão com mais força contra o seu coração, conseguia sentir todas as moléculas quentes do seu sangue a atravessar-lhe o peito. Fixou os meus olhos e sorriu. Saímos do café e fomos para a minha casa.
No silencio, nos nossos olhos, na pureza, amamo-nos todos os dias, como naquele primeiro encontro. Alimentávamos o nosso circo com as palavras. Cúmplices nas mentiras, cúmplices na verdades, continuávamos a viver a farsa da vida, mascarada de felicidade, alegria ou tristeza.
Acordei, a cama estava toda húmida, não tinha passado dum sonho. Senti duas feridas no meu pescoço, um leve fio de sangue seco no meu peito. Virei-me e olhei para ti. Pela ultima vez, abracei-te, cansado de nunca ter visto os teus olhos. No dia seguinte, fui de novo ao café e esperei pela minha Jocunda.