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Diário duma insanidade banal [entries|archive|friends|userinfo]
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Barbie tasqueira [Jan. 11th, 2007|07:24 pm]
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Meu rabiosque suavemente encostado ao frio banco de madeira gasta, fumava tabaco de enrolar Detroit com mortalhas Detroit.
- Labrego!
- Labrego o caraças! Teso!

Maria Ivone, 72 anos, saia preta, avental preto, blusa preta as bolinhas brancas estava tranquilamente sentada ao pé do balcão. Com o ultimo botão desabotoado, olhava para mim. Tinha um olho vendado, mas estranhamente com a venda levantada.
- É só para o estilo! Assim pareço uma pirata das Caraíbas!
Era uma magnifico exemplar de típica viúva. Tinha herdado do seu falecido marido esta – mundialmente conhecida - Tasca do Zé. Os clientes habituais, fieis amigos do antigo dono, fitavam-na com o ar pesadamente acusador.
- Coitado do Zé, se visse a figura dela agora. Rebarbada, oferecida!

Cuidava do negocio de família, como uma cão a proteger um osso. Rosnava quando os jovens entravam, impunha respeito. Era uma obreira sem perdão, quando baixava a venda os velhos punham-se a pau.
- Aqui não há fiado! Estas a ver esta venda, foi o ultimo que tentou. Fiquei com um olho assim, mas acredita que aquele cabrão nunca mais poderá ter filhos.
Contavam os sábios - a sombra do castanheiro e com um copo de tinto na mão - que o dito, tentando fugir sem pagar e armado em macho latino, tinha-lhe queimado o olho com um cigarro. E que ela, num golpe fantástico e perverso, tinha-se ajoelhado ao pé dele e com um olhar cioso tinha-se abraçado a ele.
- Queres me foder, és bem bonito sabes. Já há muito tempo que ninguém me fode, coitado do meu Zé, Deus lhe perdoa. Não te armes em tímido agora, gosto de verdadeiros machos como tu. Mostra lá as tuas jóias de família que aqui ninguém vai ficar a perder.
E Zasss, numa só dentada – tira-e-queda – acabou com os herdeiros do nosso caro amigo. Olhou para ele, sorriu e cuspiu os dois tomatinhos para um copo. Tranquilamente e assobiando, levantou-se e voltou a trás do balcão.
- Agora, é oferta da casa. O que é que se bebe aqui?
- Licor de Beirão – responderam todos em coro.
- E o teu, meu querido, vais ser neste copo aqui. Nem sequer vais precisar de gelo, já tens lá o acompanhamento especial da casa.

Olhava para mim, ou melhor, estrabíca, o olho nu olhava para os meus olhos e a venda para a minha braguilha. A tasca estava vazia por se jogar a final do campeonato distrital.
- Porcaria de futebol, é uma merda para os negócios. Mas não me posso queixar de ti, sempre fiel, não é querido?
Enquanto a minha mão direita aproximava-se dos meus testículos, apertei as pernas. Acabei com a imperial de penalti e - mesmo meio bêbado - não me sentia seguro. Ela, sentada a duas mesas de mim depois de ter limpo a casa de banho, desabotoou mais um pouco a blusa. Delicadamente, a mão direita aproximou-se das cuecas.
- Jovem, sabes como é, estes velhos não sabem acertar na sanita, fica o chão todo mijado, e depois para limpar não é brincadeira. Estou com um calor! Mas tu não, meu querido. Quando estás aqui sozinho, costumo olhar pelo buraco da fechadura, es um menino muito asseado. Gosto disso. Ofereço-te mais uma bebida.
- Não obrigado, estou bem, acho que vou para a casa, estou a ficar com sono.
Num movimento digno de Bruce Lee apanhou a bengala e atirou-a contra a porta, fechando-a, movimento este, acompanhado por uma rotação de cabeça. Com o balanço cuspiu a placa. Em camera lenta, observei a sua trajectória parabólica, acabando com um ricochete contra a parede, o que provocou um movimento rotativo da placa com aceleração do bater de dentes. Estes encaixaram-se na chave e trancaram a porta. Como que guiada por um comando remoto invisível ou se calhar uma intervenção divina, a placa voltou para dentro daquela boca, cada vez mais gulosa.
- Não sejas mal educado meu querido, bebe lá a cerveja e aproveita a companhia.

A mão dela estava a baixar as cuecas, ou melhor a cinta, ou melhor aquilo que lhe tapava o ventre e baixo-ventre. As moscas entraram em pânico, também o Bobby, coitado do cão. Desde a morte do Zé, este seu fiel amigo - tinha ficado entregue as mãos da Maria Ivone - ganhou um ar cansado e desgastado, Deus sabe o que se passava a noite dentro daquela casa. Tentavam escaparem-se. Mas nada, impossível de fugir, as moscas e o cão mandavam cabeçadas contra as janelas, mas não se abriam. O espectáculo até poderia se ter tornado cómico, se não estivesse lá - também eu - com eles, a tentar ajudá-los. Estávamos presos.
- Então querido, isto é tudo qualidade de primeira e já há tanto tempo que não serve que é como se fosse virgem!
A blusa já tinha saltado, aparecendo seis montes de carne informe a minha frente, não conseguia distinguir o que era pescoço, seio ou barriga. Era um verdadeira quebra-cabeças de banha e pele.
- Dizem que sou parecida com a Catarina Furtado, deve ser por causa da verruga. Fiz um pouco de cabaret quando era mais nova, ainda conheço alguns truques.
Com uma mão apanhou a cadeira que deslizou por baixo das suas pernas, levantado a saia preta, juntando mais algumas peças ao quebra-cabeças. A cadeira atirada, bateu na minha, fazendo-me cair de joelhos. Estava lá ela! Toda oferecida, colada ao meu rosto.
- Lindo menino, lindo, dá cá uns beijinhos a mãezinha, dá cá uns miminhos.
Com as suas mão agarrou na minha cabeça e Zasss.

Acordei, suado, e ri.
- Que sonho do caraças!
Fui a casa de banho e bebi um copo de agua. Voltei para o quarto, acendi a luz a procura dum cigarro e enfiei-me de novo na cama. Senti um corpo quente deitado a minha direita. Intrigado, levantei os cobertores.
- NNNNNNNNAAAAAAAAOOOOOOOOOOO
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Anuska na serra [Dec. 4th, 2006|08:19 pm]
diario_banal
Ou a morte da Anita...

Caminhávamos com cada vez mais dificuldade, o oxigénio - escasseando-se – transformava-se em machados que se iam enfiando nas nossa gargantas. No entanto, a dor sentida pelo corpo era mascarada e ignorada pelo nosso cérebro, demasiado entretido em defender com fulgor as visões que nos tinha proporcionado o nosso ultimo companheiro de cabeceira. Milhões de emoções nos tinham invadido e, inexoravelmente, as nossas leituras tinham sido diferentes.
- Juro que não percebo onde foste buscar esta ideia de apologia da mulher!
- É simples, quem assumiu a liderança do grupo foi a mulher e não o medico!
- Ainda consigo admitir que se possa ver a glorificação do casal, na sua ideia católica e romântica. Juntos complementam-se e acabam por criar uma “entidade” superior a mera soma das suas duas personalidades. E neste caso, seria esta “entidade” a assumir a liderança.
- Viveram felizes durante a eternidade e tiveram muitos filhos, não é?
- Nada a ver! Vejo uma espécie de estudo sociológico, um testemunho da incapacidade dos humanos definirem o seu próprio destino. E como consequência, a necessidade intrínseca de se juntarem em grupos e precisarem duma liderança.
- Sobre este ponto, concordo. Duma certa forma, nega-se aqui a viabilidade da anarquia. Será sempre preciso um mestre, um feiticeiro, um padre, um presidente ou um rei, para isso tudo faça sentido. Uma representação de Deus ou de qualquer entidade superior na Terra, a volta da qual se unem e que define o rumo as suas vidas.
- Um ateu a falar da procura de Deus! Isto está cada vez melhor!
- E repara que temos aqui dois grupos totalmente diferentes. Num deles o “chefe” impõe-se agindo como um ditador; no outro nasce naturalmente e é aceite pelos outros, como que eleito pelas suas capacidades.
- Já te disse que não devias fumar quando lês. Coitadinho, ficas todo baralhado!
- Fogo pareces o meu pai!
- O teu pai é um sábio!
- Sábio! Bolas! Conheces o meu pai!

A medida que o refugio se ia aproximando, os nossos cérebros pareciam também eles vitimas do frio. As palavras começavam a ser escassas mas os sentidos pareciam cada vez mais despertos, como que revigorados. Por muito que este ritual fosse repetido já varias vezes, apareciam sempre trechos de natureza, puros e virgens, que ainda aumentavam o encanto beático da penosa peregrinação. Ao chegar, desfizemos as mochilas e sentamo-nos frente a lareira onde ainda gizavam algumas brasas.
- Foste tu que ficaste com a comida?
- Comida? Sim, tenho aqui duas barritas de cereais.
- Queres chá. Temos que nos despachar, temos no máximo dez minutos.
- Dá cá. Precisamos “alimentar” os nossos organismos.
- Alimentar? Que palavra tão nobre para descrever as porcarias que estamos a mamar!
- Olha, vou enrolando uns charros, que lá fora é danado, e não me apetece interromper - como problemas “logísticos” - o nosso verdadeira “repasto”, o da alma.
- Que filosófico que tu está hoje!

Estávamos prontos, o disco magico ia aparecer entre os picos cobertos pelas neves eternas. Mal podíamos esperar. E majestoso, como sempre, despediu-se dos espectadores que também o idolatravam numa qualquer na outra parte deste planeta, pediu licença a lua, esperou que ela se retirasse com o seu manto negro e coberto de poeiras cósmicas, vestiu o seu fato de gala rosado e emergiu em todo o seu esplendor.
- Nunca me poderei cansar desta beleza.
- Sinto Deus. Está aqui atrás de nos, a abraçar-nos e a sussurrar: “Olhem e admirem”.
- E lá estas tu outra vez com Deus! Não deixa de ser cómico e contraditório…
Pouco a pouco apareceram as nuvens, lentas e preguiçosas, carregadas com os seus diamantes húmidos. Apaixonados, os picos prateados penetraram e beijaram aquele algodão doce voador. De lábios colados, silenciosamente, atingiram o orgasmo. As montanhas ejacularam anjos com asas douradas e sorrisos extáticos que se espalharam e nos ofereceram as suas mensagens de paz.
- Gostas de mim?
- Gosto.
- Mas porque?
- Quando a lama que obstrui a tua mioleira se dissipar, voltaras a saber.
- Porque estar aqui comigo?
- Porque eu também quero vê-los. Porque todos nos queremos vê-los.
- Tantas vezes senti-me triste aqui. Sentia que não era digno de os receber. Sentia que não era digno da tua companhia.
- Ninguém merece. Estão aqui, livres, a flutuar a volta das nossas cabeças. Não te pedem nada. Só os aceita quem quiser. Tal como eu.
- Já há um ano que não nos vemos, mas é como se nunca te tivesse perdido.

Acendi outro e encostei o minha cabeça cansada ao ombro dele.
- Lembras-te da L.
- Sim, lembro-me e também daquela vez em que no meio de toda a gente, ela virou-se para ti e beijou-te. Ficamos todos petrificados.
- Sim foi estranho, senti-me violado pela língua dela.
- E lembro-me também da gargalhada geral que provocaste quando te levantaste e pediste se não havia nenhum quarto vazio.
- Ela estava completamente bêbada e precisava de dormir…
- Sim, eu sei. Mas não te esqueças dos bolinhos mágicos, do rum e daqueles alucinantes revolveres que não paravam de rodar. Estávamos todos pedrados. O revolver, aquilo foi invenção do diabo! Nunca ninguém chegou a perceber a vossa relação. Cada vez que saímos, ela nunca queria vir.
- Mas sempre que estava mal, ela parecia ter um sexto sentido e aparecia lá em casa. Não precisava de falar, deitava-se por trás de mim e segurava as minhas mãos. Só assim é que, naqueles dias, eu conseguia dormir.
- Lembro-me, pareciam duas colheres encaixadinhas uma na outra, apesar de teimares que não havia nada entre vocês.
- E não havia nada, pelo menos nada do que vocês imaginavam.
- Os teus delírios, por vezes, eram cómicos, mas também podiam tornar-se assustadores.
- Pensava que ela tinha pena de mim. Passei por uma fase em que não suportava mais aquele olhar, o seu corpo contra o meu. Gritei-lhe tantas barbaridades. Mas ela voltava sempre. Ficava desesperado até que um dia decidi ignora-la.
- Tens que parar com estas porcarias. Tens que te controlar. Estás de novo possesso.
- Não... Sabes… Ainda a vejo.
- A sério?
- A semana passada, fomos passear. Tinha voltado o B uns dias antes e para variar foi uma orgia de erva. Delírios atrás de delírios e paranóias atrás de paranóias.
- Voltas sempre a cair na mesma armadilha.
- Foi violento, duro com o sempre, mas no meio dos delírios senti que precisava de estar de novo sozinho com ela. Sabes que ela gosta de gomas.
- Não sabia.
- Compramos gomas e voltamos para casa. Como sempre, assim que o sol desaparecia, uma vontade tremenda de sexo nos invadia, um sexo assexuado e preguiçoso. Naquela noite, tinha guardado aquelas gomas maiores em forma de serpentes. Juntou-as todas, despiu-me e começou a chicotear-me com o instrumento multicolor e improvisado. Ao sentir o açúcar a deslizar e desfazer-se sobre o meu corpo quente, entrei em transe. Depois, ela lambeu cada uma das gotas brilhantes espalhadas sobre mim.
- Não te sintas obrigado de entrar em mais pormenores.
- Sussurrou que me amava e queria saber qual era a sensação de eu ser finalmente doce para com ela. Que queria saborear a minha pele e não ter que cuspir o sabor amargo do suor que me cobria entre espasmos. Que eu não a deixava amar-me. Que não podia continuar a querer ser amado como um Bobo que esconde, vergonhosamente, o seu luar. E por isso, só semeava o caos a minha volta.
- O amor como tu o procuras não existe.
- Que não aceitava que ninguém entrasse no meu mundo de fantasias. Que a perfeição que eu tanto procurava só se encontrava nos anjos, místicos e irreais. Que eu não tinha que a merecer. E que não era nenhum profeta com a missão de transcrever a beleza celeste e de divulgar a boa nova a quem eu amava.
- Andas connosco e pensas extasiar-te como nós. Mas nunca o conseguiste. Estas sempre a procura de mais. Decoras, pintas, analisas, vês mas nunca vives.
- Eles não deixavam…
- Todo os dias pintas um quadro novo, com cores cada vez mais fortes, olhas para ele, mostras a toda a gente e depois queima-lo, porque nunca chega, porque o encanto desapareceu. Não percebes que é por ser morto. Percorres as estradas cada vez mais rápido, já viste tudo o que tinhas para ver, já pensaste tudo o que tinhas para pensar, o tédio apodera-se de ti cada vez mais depressa, só iras conseguir parar quando atingires a velocidade da luz e estoirar os miolos num bigbang neurótico.
- Sabes, estou cansado.
- Enquanto nos divertimos com as palavras, tu usas estas mesmas para aumentar a tua alienação. Connosco, não levantas o olhos. Procuras só alguma flores para disfarçar o fétido cheiro que emana da sepultura que te serve de alma.
- Não nos vimos durante toda a semana. Ontem, ela voltou. Sem cio, sem gritos, deitamo-nos e voltamos a aconchegar-nos. Pegou nas minhas mãos e adormecemos. Desta vez, não acordei no meio da noite para admirar a sua beleza.
- Vive e para de analisar.
- Hoje a tarde quando acordei, queimei as memorias e liguei-te. Ela ficou a dormir, beijei longamente aquelas mãos e vim ter contigo. Queria sentir - pela primeira vez - o bater de asas dos anjos no meu rosto e queria que fosse na tua companhia. É a minha despedida...
-Despedida?
- Amanhã, vamos partir, desta vez não sabemos para onde, mas sabemos que será a minha ultima viagem.
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Pocahontas e o velho feiticeiro [Oct. 8th, 2006|07:47 pm]
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updated dia 16/10/2006

Já não conseguia dormir a semanas, todas as noites ouvia o mesmo martelar periódico e sem fim a rondar a minha casa, levantava-me, sondava o mundo exterior a partir de todas as janelas da casa, mas não via nada. Naquela noite, bateram a minha porta. A pancadas frenéticas e violentas ecoavam na minha cabeça ensonada. Perante tanta insistência, nu, fui abrir a porta.

A minha frente, uma velha com uma perna de pau, segurando nos seus braços uma massa informe enrolada num resto de xaile preto e sujo. Incrédulo, esfreguei os olhos e voltei a observar esta – misteriosa - visita.
- A senhora deseja?
- Não desejo nada! Ou melhor, sim, desejo. Vim cá entregar-te o nosso filho.
- Não percebo. Quem é a senhora?
Levantou a cabeça. O seu rosto lívido e faminto, não passava de pele esticada sobre o crânio. No lugar dos seus olhos, desenhavam-se duas crateras tenebrosas, dois buracos negros que me atraiam. Sentido a hipnose que provocara em mim, um sorriso macabro e desdentado rasgou-lhe a face.
- Ele é tão lindo.
Em sintonia com as palavras, num gesto teatral abriu o xaile. Apareceu - naquele leito – um bebé, nato-morto, de pele transparente a cobrir-lhe o esqueleto e as veias azuis. Gizava na posição fetal, com o cordão umbilical a volta do pescoço, enforcado durante o parto.

Perante este quadro abjecto, dei um passo para trás. Sentia o azedo sabor a vomito a invadir a minha garganta. Não conseguia deixar de fixar aquele cadáver.
- Vês, apresento-te o teu filho. É parecido contigo, têm os teus olhos.
Não passava dum feto com olhos globulosos, castanhos, transparentes, vazios. Uns olhos mortos.
- É o nosso filho. É o fruto das nossas longas noites de amor.
Paralisado, senti-a a aproximar-se. Pousou a cabeça sobre os meus ombros, abraçou-me, os seus dedos descarnados pegaram no meu queixo e – suavemente – levaram-no até os seus lábios secos, beijou-me.
- Ainda sinto o sabor dos teus lábios a passear no meu corpo, o teu sexo erguido e frio que me oferecias e sobre o qual me debruçava. O movimento de vai-e-vem dentro de mim a atingir o meu coração. Ainda sinto o teu suor e o teu perfume a entranhar-se em todos os poros da minha pele, o teu esperma glaciar a pintar de azul o interior das minhas entranhas.
Tentei libertar-me dos seus braços, afastei-a. Estava aterrorizado, tremia, não conseguia falar, não conseguia pensar. Só via aqueles olhos mortos, na minha mente encenavam um Kama-Sutra fúnebre, onde eu crucificado ao chão era utilizado e usado como um vulgo dildo humano.
- Já não me amas? Já não consegues olhar para mim!?

Cuspiu, da sua boca saíram baratas peludas e viscosas. No chão, finalmente livres e ainda atordoadas pela queda, olharam para mim com lágrimas a percorre-lhes a face. Atónico perante este espectáculo, fiquei a observá-las enquanto subiam pelas minhas pernas, a procura do meu sexo.
- Deixa-nos… Queremos voltar a ser teus…
- É teu filho, são todos os teus filhos, não os rejeites…. Sentem tanta a falta do pai, eles amam-te.
Finalmente lúcido, enxotei-os, virei-me para ela e - com rosto de ódio e medo – empurrei-a para fora do meu lar, recuei e tentei fechar a porta. Mas, como se tivesse lido na minha mente, enfiou a sua perna de pau no vão da porta, os últimos centímetros que ainda não separavam o meu lar da visão do passado inferno que ela me oferecia.
- Todas as noites chamavas-me, gritavas por aquele amor morto. Não te lembras do uivos que rasgavam o teu peito?
- Mas…
- Todas as noites consolei-te, abracei-te, amei-te… Todas as noites.......
- Mas, quem é a senhora?
- E depois expulsavas-me da cama! mas ainda te amo, sempre voltei naquelas tuas noites de loucura...

As suas crateras encheram-se de lágrimas, cuspiu outra vez. Desta vez, banhados em bílis e sangue, os - pretendidos - filhos saíram da sua boca decompostos e mortos. Ao atingir o chão, formaram uma mancha desenhando o teu rosto.
- Ainda pensas nela! Ingrato! Vé bem o que os nossos filhos lhe vão fazer!
Assustadas, as baratas olharam para o teu rosto pintado no chão. Com tristeza e ódio, desfizeram este teu retrato visceral e olharam para mim.
- Não sobrara nada!
- O quê?
Enfiaram os seus focinhos, na massa viscosa que cobria o chão e alimentaram a sua ira com os restos dos seus próprios irmãos.
- Pai, veja o fruto do seu ódio.
Observaram o meu filho com olhos ensanguentados e famintos, subiram pela perna de pau.
- Pai, veja qual vai ser o destino do seu preferido, aquele que nasceu com os seus olhos!
- Não! Parem!
Penetraram o xaile e invadiram o ventre do primogénito, rasgaram-lhe as entranhas. Profanaram o corpo do filho para matar o incestuoso pai. A seguir ao festim, uniram-se e cobriram os ossos do que restava do irmão preferido. Retomaram o lugar da defunta carne, procurando reproduzir a sua forma fantasma.
- Pai, agora nos também temos os teus olhos. Pega-nos ao colo. Ama-nos como nos te amamos.
- Não posso…

Do seu saiote, a velha tirou uma chucha que enfiou na boca do filho.
- Esqueçam… Mortos, já somos nós, tal como ele… Vamos embora…
Deu um passo atrás, as suas orbitas fixaram as minhas lágrimas e com voz de repudio despediu-se.
- Ingrato!
Voltou a tapar o primogénito, virou as costas e foi-se embora.
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Anuska em Paredes de Coura [Sep. 23rd, 2006|09:59 pm]
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Ou a insustentável banalidade do ego


A noite estava agradável, refrescada pelo final de tarde a chover. Deus tinha conseguido ganhar mais uma difícil batalha, poupando o homem mais algumas chamas do inferno, anunciando a sua vitória com gritos pintados de raios de luminosos. O meu corpo estava, mas desta vez só ele. Também eu tinha ganho uma batalha. E a guerra? Não sei.
- O que é que isso interessa?
- Nada.
Os objectos voltaram a ser simples objectos, não me apetecia beijar a televisão nem esfaquear o Menino-que-chora. Em sinal de tréguas, a cama - nua - chamava por mim.
- Vem querido, vem. Estou pronta para te receber.
- Eu também estou pronto.... Para te amar.
A caneta ficou pousada em cima da secretaria, as folhas de papel continuavam virgens e obsoletas. Irritado, o Diabo mostrou-me o seu rosto de enxofre.
- Deves pensar que te vou deixar descansar! Mas enganas-te.
- O que é que isso interessa?
- Nada. Para já!

De manhã, tinha passeado pelo parque e admirado o espectáculo dos cisnes a deslizar sobre as águas do lago. Bati palmas e pedi mais. Mas, pretensiosos, de cabeça erguida, viraram as costas e foram ter como a mãe.
- Queridos, despachem-se. O pequeno-almoço está pronto.
- Já vamos.
- Quem quer um sumo de laranja fresquinho?
- Eu, eu.
A mesa estava posta composta com croissants, frutas e doces de mil e uma cores que cobriam a toalha bordada pela avó. Ciumento e invejoso, dirigi-me a esplanada do bar, pedi um sumo de laranja e um croissant com doce de cereja. No final do repasto, lambi os dedos e senti o meu corpo a absorver os alimentos, transformando-nos em quadros de Van Gogh. Girassóis, estendidos sobre espreguiçadeiras verdes e imaculadas, tomavam banhos de sol.

Maravilhado, saí da esplanada e sentei-me a sombra dum eucalipto. O banco estava coberto por finas gotas de água, macias e doces, que se desviaram-se para acolher o meu corpo e oferecer-me o aconchego que o céu ou o seu Dono me queria negar. Peguei no “Big Sur” e voltei a ler os poemas sobre o mar. Já não eram sinistros nem neuróticos, mas simplesmente e loucamente belos. Acendi um cigarro e deixei os meus olhos percorrer o espectáculo da natureza.

Um capuchinho vermelho, montando o seu nobre triciclo branco, passou a minha frente.
- Cara ou coroa?
Deixava no seu caminho umas bolas de sabão, não se queria perder e queria voltar a casa atempadamente para ver o telejornal. Angelical e louro, o seu rosto apresentava um sinal dourado no canto esquerdo da boca. O mar das Caraíbas invadia os seus olhos, peixes prateados e majestosos saltavam no azul turquesa das suas íris.
- Cara ou coroa?
- Cara.
Deu-me um beijinho e continuou o seu caminho.
- Que menina tão amorosa.

Metros a frente, uma mulher - com pouco mais de 20 anos – estava também sentada, lia a “Elle”. O seu rosto, iluminado e irradiante, emanava felicidade por todos os poros. Era um menino, já sabia qual era o sexo do bebe e estava ansiosa por o dizer ao namorado. Iam casar e viver felizes para sempre. Iam chamar o menino André. Ia ser medico ou poeta. Ia ter um sorriso encantador e nenhuma mulher lhe ia resistir.
- Cara ou coroa?
- Coroa.
O capuchinho saiu do triciclo, fixou o olhar da mulher, aproximou-se e espetou os seus dentes na garganta da futura mãe. Segurou o pescoço da sua vitima, controlando os seus espasmos até lhe sugar todo o sangue. Acabou e virou-se para mim. Um focinho comprido e cinzento escuro, armado de dentes afiados e ensanguentados, tinha substituído o seu belo sorriso. Com a língua, recolheu restos de pele pendurados aos seus lábios. Voltando ao seu dragão de ferro, piscou-me o olho, negro como as trevas.
- Tenho que me despachar, senão a minha avó vai ficar chateada. Ela tem sempre medo de quem possa encontrar no seio desta floresta.

O meu telemóvel tocou. Era meu irmão e queria saber quando o iria visitar. Não sabia, mas faria os possíveis para ser o mais cedo possível. Salivei só de pensar no Licor de Beirão e nas chouriças assadas que alimentavam as nossas directas. Desliguei e fechei os olhos. Senti uma música invadir-me: Mono, album “One more step and you die”, faixa 2 “Com”.
Flash:
Os beijos eram preguiçosos e intensos, as carícias eram delicadas. Rasguei a tua roupa e mordi-te o lábio. Beijamo-nos de novo, carinhosamente. Arranhaste-me as costas. Lambi o teu sexo. Atei-te com as algemas felpudas a cama. Beijei-te o interior das coxas. Agarraste o meu cabelo e levantaste-me a cabeça.
- Fode-me!
Amamo-nos.
Projecção: Orgasmo.
A música acabou, as imagens despediram-se da minha mente. 16 minutos de vida, 16 minutos de picos e vales, 16 minutos intensos e belos. Abri os olhos, o meu sexo erguido doía-me, voltei para casa. O corpo, de novo atento a suas necessidades, pediu-me comida, precisava tanto destes alimentos que a insanidade lhe tinha negado até agora.


Satisfeito, fugi desta casa-cela almofadada, receptáculo infame de todos os meus gritos e lágrimas.
Procurava locais públicos e cheios de energia, quadros floridos sobre os quais poderia fixar o meu olhar. Como na véspera, o anjo moreno voltou a cruzar o meu caminho. Sorri.
- Hoje, já sabes onde fica a casa de banho.
- Sim.
Corou.
- Mas podemos tomar um café? O que estas a fazer?
- A corrigir uns textos.
- Não me digas que és professor?
Sorri.
“Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço”. Virei-me, mas não estava lá, não passava dum eco do passado. No seu lugar uma serigrafia manhosa e banal com uma paisagem campestre.
- Não. É uma espécie de testamento. É a minha despedida.
- Posso ver?
Corei
- Sim, se quiseres.
Misturavam-se gargalhadas, sorrisos, conversas e partilhas. Um piscar de olhos. Mais um sorriso. O real e o virtual, dois mundos – durante tanto tempo separados, alimentando a minha esquizofrenia – uniam-se. Neste dia, formaram uma única bola de sabão na qual me deixei flutuar.
- Também adoro.
- A sério.
- Estranho, não é? Felizes coincidências...
- Então talvez gostes também disto. ;)*
- Tenho que desligar. ***

O Müller com voz dos Mão Morta diz que a tortura é mais fácil de aprender que a descrição da tortura. A felicidade também.

Menti, as folhas enchem-se de palavras. Mas o quadro pintado tem o sabor do azul do céu e não do vermelho do meu sangue.

original : http://emiliodobrasil.livejournal.com/131088.html
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Anuska na esplanada [Aug. 28th, 2006|09:10 am]
diario_banal
O despertador tocou mil vezes, mas não me conseguia levantar, não conseguia sair do torpor, mantido por milhões de garras afiadas e invisíveis. Duas mortalhas, um cigarro, um isqueiro, droga, os únicos alimentos que suportavam o meu corpo débil. De mãos tremidas, procurei vos, meus caros companheiros; finalmente meus, o mundo desapareceu transformando nestas duas mãos firmes e seguras a preparar os ingredientes para mais um dia a flutuar na cidade fantasma, sem corpo e sem alma, vazio, morto, descansado. Sem espasmos e sem palavras, a escassa lucidez que ainda percorria a minha mente, agarrava-se com todas as forças do desespero a esta ultima flor selvagem e delicada,

Flash:
Na outra ponta da mesa, o penetra. Todos os dias estava lá em casa, chegando por volta da hora de jantar e saindo com o ultimo convidado.
- Não percebo, nunca senti isso.
- Porque alimentas constantemente o monstro. Mas se o deixas passar fome, verás.
- Nunca me aconteceu.
- Com os cogumelos notou-se mais, 10 milhões de vezes mais. Mas a descida é terrível.
“Terrível”, que palavra tão pobre para traduzir a violação do nosso cérebro pelo diabo e todos os seus demónios armados com os nossos piores medos e tormentos, pensava eu.

Como um autómato, seguia todos os passos do guião que tinha escrito para conseguir sobreviver.
Primeiro, tomava o meu café e fumava o meu primeiro Camel.
Segundo, voltava para casa fazer as minhas necessidades.
Terceiro, ia ao Multibanco verificar ainda tinha dinheiro para os meus vícios.
Quarto, carregava o telemóvel para verificar se ainda funcionava e se não tinha um problema que o impedisse de receber chamadas e mensagens.
Quinto, tomava o segundo café do dia, para voltar a activar o efeito do “comprimido” e fumava o segundo cigarro.
Sexto, voltava para casa.

O inimigo, bem que enfraquecido, ainda não se dava como vencido, tal uma hiena cobarde esperava – paciente e esfomeada – a minha morte. Na hiperactividade e na rotina encontrava os leais soldados que protegiam a minha retaguarda, criavam uma bolha inquebrável assenta sobre uma perpetua overdose de sons e imagens. Pela tampa, cada vez mais solta, do meu caixão, conseguia vislumbrar um mundo mascarado de vida; bebés sonhos com berros e olhos globulosos começavam a dar pontapés no meu ventre.
- Não vás!
- Tenho que ir.... Tenho que lá voltar....
- Mas sabes que ainda não desapareceram.
- Se calhar enganas-te...
O cheiro a sangue, apesar de enfraquecido, tinha sobrevivido; o contorno do corpo ainda estava pintado de branco no asfalto preto.

Flash:
Child in time do Live at Japan começou, era a minha musica, a ultima de cada uma das festas que organizávamos. Por respeito ou desinteresse, toda a gente se afastava, sobrando só o quadro pintado por aqueles gritos onde no final duma dança tribal chegava ao clímax. A C, tal como tinha entrado na minha vida, com o seu ar tímido e provocador, aproximou-se de mim e pegou na minha mão.
- Está fria. Deixa-me a aquecer contra o meu corpo.
- (silencio)
- É estranho, as nossa vidas são tão semelhantes. Será o destino?
- (silencio)
- Temos as mesmas dores, as mesmas paixões, os mesmos desejos...
Levantou a t-shirt e colocou a minha mão na sua anca.
- As tuas mãos continuam frias.
Lentamente, levou-me até o seu seio. Os nossos corpos juntaram-se, os nossos olhos fornicaram sem amor, libertando simples e selvagens desejos carnais. Introduziu a minha mão nas suas cuecas e ofereceu-lhe o seu sexo húmido.
- Não posso mas apetece-me.
- Apetece-me mas não posso.

Ainda enfraquecido pelo cheiro a sangue, não queria voltar para casa. Instintivamente, dirigi-me até café que costumava ser meu, sentei-me a mesa que costumava ser minha, pousei o minha mala na cadeira que costumava ser dela e esperei pelo empregado.
- É um café e um maço de Camel, como de costume?
- Obrigado.
Mas não apareceu. O balcão estava vazio, destruído, coberto de pó e de restos bolorentos de bolos. As cores tinham desaparecido, as mesas e as cadeiras - desfeitas e cobertas por teias - gizavam no chão. A minha volta os fantasmas bebiam os seus café quentes e fumavam os seus cigarros. Por respeito ou desinteresse, mantinham-se calados e não olhavam para mim. Tremendo, acendi um cigarro e fechei os olhos.
- O senhor deseja?
- Um café.
O sol queimava-me os olhos, mas não me importava. A leve brisa que percorria a esplanada - misturada com o agradável cheiro a torrada que emanava do café cheio de sorrisos e palavras - sabia-me a vida. No parque, crianças e cães dançavam como se fosse a minha ultima musica.
- Pelos vistos, também, já não precisas.
Acabei o café e gulosamente lambi a colher. Melancólico e sorridente, pisquei o olho ao inimigo.
- Talvez não.
Levantei o meu corpo enfraquecido, descalcei-me para sentir todos os pés de relva e fui ter com eles.

Flash:
Deitados, na relva. Não precisávamos dizer nada.


original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/140560.html
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Passeando pela floresta das maravilhas [Aug. 26th, 2006|06:16 pm]
diario_banal
updated:26/08/2006 - 19h16

Calça da moda, camisa da moda, sapato da moda, estava no café do costume, a hora do costume, na mesa do costume. Tinha acabado de fumar um Camel, acabado de beber de penalti o café quente, salvaguardando - como de costume - um fundo para beber antes de sair. Em cima dos meus joelhos o mesmo livro, a mesma pagina aberta a duas semanas, tentando ler. Os meus olhos passeavam pela pagina, perdidos, viajavam pelos vales criados pelas palavras, hipnotizados por esta paisagem a preto e branco.

Na outra ponta da sala, sorria aquela rapariga de corpo invisível, escondido por roupa informe, sem sabor, com 3 ou 4 tamanhos a mais; uma neutralidade que realçava ainda mais o seu rosto, puro, angelical.
Uma Jocunda de cabelo comprido, preto, quase cigana. Perdia-me todos os dias naqueles olhos pretos e cristalinos, um lago misterioso aconchegante e caloroso, morriam lá todos os meus demônios, uma alquimia divina transformava os seus gritos num chilrear perfumado.

Pela primeira vez, cruzaram-se os nossos olhares, e não conseguiram mais separar-se. Não sentia vergonha nem incomodo, mas uma paz infinita. Levantou-se e sentou-se ao pé de mim.
- Já há muitos dias que te vejo aqui sentado, a ler, perdido. Perdido nos meus olhos. Quem es?
- Não sei, talvez tu tenhas a resposta.
- Mas não te conheço, apenas este olhar vazio, estas mãos agarradas a este livro, o som da tua voz quando pedes um café. Mas isso não me diz quem es? Não passa dum quadro pintado pelo fumo dos teus cigarros.
- Então já me conheces. A partir de agora, entraremos numa ilusão criada pela palavras, uma ilusão criada pelo tempo.
- Mas qual é o interesse de alimentar ilusões ou sonhos? Tens medo da realidade? Queres fugir dela? Porque mentir?
- Mas qual é a diferença entre a mentira e a verdade?

Os seus olhos penetraram os meus, fundiram-se, uniram-se as nossas almas, mergulhamos juntos naquele lago celeste. Pegou na minha mão, encostou-a ao seu peito, com a outra levantou suavemente o meu rosto, inclinou-se e beijou-me.
- Ontem vi-te no parque. Com o mesmo cigarro que nunca acaba, com as mesmas paginas que nunca se viram. Parecias hipnotizado pelas arvores.
- Estava a ver duas freiras. Saltavam de ramo em ramo, cravavam neles as suas garras afiadas. As arvores não paravam de gritar. Seguravam nas suas mãos uns terços vivos, Eram uns ratos felpudos e gordos, empalados, crucificados, segurados pelos rabos. Quando paravam - suspensas no ar - beijavam-se. Num vai-e-vem pornográfico, as suas línguas trocavam saliva esverdeada e fumegante. Com baba a escorrer pelo corpo todo, atingiam o orgasmo ao esfregar os terços felpudos a cara das crianças assustadas. Gritavam “Deus é Amor”, atiravam-se as velhas e com uma voz cavernosa gemiam “Deixem vir até nos as criancinhas”
- Não as vi.
- Aproximaram-se de mim, sentando-se uma de cada lado. Acariciaram-me o corpo todo, sentia as suas unhas a arranhar-me, no meu pescoço deslizavam as suas línguas quentes e húmidas. Uma mistura de prazer masoquista e de medo invadia-me. Suavemente, as 4 mãos desabotoaram as minhas calças e penetraram as minhas cuecas. Com violência ergueram o meu sexo enquanto iam rasgando a pele dos meus testículos. Mostravam-no aos passantes, como se de uma estatueta se tratasse, “Vejam a semente do Pecado! Satanás! Olhem para o Diabo entre estas pernas!”. Estrangularam-no, rasgaram o apêndice, transformando-o num vulgo pedaço de pele e esponja inerte. De repente, cravaram na minha jugular os seus dentes afiados. O jacto fumegante de sangue desenhou nos seus rostos pinturas tribais, pinturas de guerra. Partilharam o sangue do pecado, lambiam, bebiam, beijavam-se, recriando uma Ultima Ceia Morbida.
- Não as vi.
- Não existe verdade absoluta, cada um de nós têm a sua, composta por mil rostos.

Apertou a minha mão com mais força contra o seu coração, conseguia sentir todas as moléculas quentes do seu sangue a atravessar-lhe o peito. Fixou os meus olhos e sorriu. Saímos do café e fomos para a minha casa.
No silencio, nos nossos olhos, na pureza, amamo-nos todos os dias, como naquele primeiro encontro. Alimentávamos o nosso circo com as palavras. Cúmplices nas mentiras, cúmplices na verdades, continuávamos a viver a farsa da vida, mascarada de felicidade, alegria ou tristeza.

Acordei, a cama estava toda húmida, não tinha passado dum sonho. Senti duas feridas no meu pescoço, um leve fio de sangue seco no meu peito. Virei-me e olhei para ti. Pela ultima vez, abracei-te, cansado de nunca ter visto os teus olhos. No dia seguinte, fui de novo ao café e esperei pela minha Jocunda.
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Cinderela [Aug. 23rd, 2006|09:23 am]
diario_banal
Acordei com o calor do sol a queimar-me a face, na véspera tinha-me esquecido de tapar a cabeça com os cartões. A minha boca e os meu olhos estavam como paralisados, presos por um colete de força moldado pelas crostas de pó e sangue a estalarem no que restava do meu rosto. Endireitei-me com o corpo dorido, flagelado e tatuado com marcas desta inhospede cama, deste banco ferrugento, este leito a 30cm da lama, uma tão curta distancia, a representação numérica do que restava da minha dignidade.

Frente aos meus olhos pintava-se o quadro da vida, pessoas a passear, mulheres de vestidos coloridos e primaveris, homens de músculos expostos. Partilhavam uma dança, um baile ao qual sabia que nunca mais iria ser convidado. Em parar, olhavam para mim com desprezo e nojo.
- Quem será ele?
- Temos mesmo que assistir a esta pouca vergonha!

Puxei os cartões gastos, dobrei-os cuidadosamente e arrumei-os no saco do lixo que me servia de mala, como se de um tesouro se tratasse. Levantei-me - a luz do sol violava o vazio que se tinham tornado os meus olhos - e estendi a mão. Ritual obsoleto, automático, repetido todos os dias, uma mão desesperadamente e sempre vazia.
- Va la! Faz-te a vida! Porcaria de pedinte!
- Cada um tem aquilo que merece!

Uma velha de luto com ar de compaixão severa olhou para mim, o cão dela rosnou. Pedi-lhe uma caneta, aproveitando a minha desatenção o cão mordeu o osso que dantes era a minha perna. A seguir uma carícia no seu fiel companheiro, ela deu-me a caneta.
- Fica com ela, ainda me contaminas!
Arranquei um bocado do meu cobertor e escrevi: "Só peço um pouco de amor. Obrigado."
Coloquei a placa em cima dos meus joelhos e voltei a estender a mão.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac..... as horas passavam, as pessoas passavam todas com o mesmo olhar, um comboio de nojo e desprezo..... tic, tac, tic, tac, tic, tac...... O manto escuro da noite tinha-se abatido sobre a rua Principal, já não havia ninguém. A poluição e as feridas não me deixavam ver as estrelas, só conseguia ver a luz das janelas, sorrisos, risos, televisão, um orgasmo, os talheres de prata a roçar pratos Vista-Alegre....... vislumbrava o meu passado e o futuro que jamais teria.

Olhei para a minha mão, estava vazia, excepto o teu cuspo, litros e litros de cuspo verde, viscoso, nojento, que tentava fugir-me entre os dedos, nem ele queria ficar...... nem ele.....

Voltei a tirar o cobertor da mala, estendi-me de braços cruzados sobre o meu peito e cobri-me, esperando nunca mais acordar....
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Romeu e Julieta [Aug. 23rd, 2006|09:23 am]
diario_banal
Tinha saído do trabalho. O meu corpo estava cansado, mas a minha mente depois de 12 horas atrofiada pelo tédio laboral estava de novo solta. Voltava para a cidade fantasma, esperavam lá por mim tijolos e cimento frios, o esqueleto duma casa que dantes tinha sido um lar. Prestes - mais uma vez - a acompanhar a noite de tortura, Ian Gillian já estava a chorar as lágrimas que não conseguiam sair de mim, quando ouvi musica la fora. Decorria mais uma baile ao pé desta masmorra leprosa. Festa municipal, Santos populares, angariação de fundos ou qualquer outro motivo, não passavam de pretextos para tentar despertar a cidade morta; o bailarico e a musica pimba eram o ópio deste povo. A mente débil, sai de casa, tendo mais uma vez como objectivo a carrinha dos comes-e-bebes brilhando de azul na minha noite escura. Procurava lá o álcool que em quantidade suficiente tomava o papel que o meu corpo já não desejava assumir; só bêbado conseguia dormir. Na noite sentava-me a maquina de escrever, com as palavras desenhava o teu sorriso nas folhas de papel branco. Com os caracteres deste alfabeto – agora obsoleto - desenhava os recantos do teu rosto que já não podia beijar. Edificava o altar dedicado ao nosso defunto amor, acompanhado pelo eco do doce som da tua voz.
- São 2 imperiais para já e mais 5 garrafas, mas não as abra.
- Têm a certeza?
- Sim... Não se preocupe, serão bem empregues em casa.
- Conversa de bêbado!
- É isso mesmo... Sou um bêbado...

Apareceste, estavas sozinha, o teu cabelo ondulado flutuava ao ritmo da musica. Algumas rugas tinham-se desenhado no teu rosto que já tinha perdido a selvagem inocência da infância. Os anos tinham passado, tínhamos perdido a tão querida ingenuidade; o teu sorriso – agora - era belo, apaziguador, ainda mais irresistível. Flutuando no mar das sombras, aproximaste de mim.
- Olá. Como vais?
- Estou morto.
- Não pareces morto, muito pelo contrario.
- Morri no nosso ultimo beijo.
- Estás diferente.

Algum do meu cabelo tinha perdido a guerra contra as leis da gravidade. O meu corpo estava cadavérico, não conseguia comer, não conseguia dormir; só a nicotina, as drogas e o álcool percorriam as minhas veias. Refugiava-me na noite escura, nela desapareciam os objectos; desesperadamente, fugia da luz do dia que despertava a morte e a insignificância deles por não serem tocados pelos teus dedos. Todas as noites travava-se uma luta da minha mente exausta contra o meu corpo que deliciava-se em não me oferecer o descanso que tanto precisava. Temia os sonhos tanto como os fantasmas que me acompanhavam quando estava acordado. Monstros felpudos de 4 cabeças, carinhosos que me abraçavam, me beijavam e me ofereciam os seus ombros para poder despejar as minhas sempiternas magoas. Aguardavam pelo sossego da minha alma, para depois transformar-se e pintar o teu rosto nos seus. Com a tua voz entoavam a marcha fúnebre do nosso amor, uma melodia macabra ritmada por sinos tenebrosos. Baratas e gafanhotos engravatados e vestidos de preto, passavam pelas minha pernas, formavam um cortejo interminável, uma fila que não parava de rir e vomitar os alimentos da loucura. O som estridente do despertador acordava-me, sempre a mesma hora. Não queria acordar. Porque acordar? Vezes sem fim reproduzia o sempiterno ritual, reprogramava o despertador para me dar mais meia hora, eram mais uns minutos entre a vida e a morte, mais uns minutos em que tentava queimar os dedos nos sonhos de morte. Como uma criança que não queria ouvir os conselhos da mãe, precisava de mutilar o corpo para me afastar definitivamente do fogo. Mas como uma criança demasiado respeitosa – palavra nobre que muitas vezes se usa para descrever a cobardia – não conseguia sucumbir ao encanto das chamas. Faltando só 20 minutos para ter que sair de casa, quebrava o jogo e enfiava-me no duche. Cortava a barba, golpeava-me, observava o sangue misturado com espuma que pingava no meu pescoço, enfiava os dedos nas feridas abertas e lambia o fluido encarnado enterrado no meu corpo. Procurava nele o sabor da vida, mas não sabia a nada. Ia trabalhar e sorria, precisava de sorrir porque precisava do dinheiro que em contrapartida me ofereciam. Só assim conseguia alimentar os vícios oludiam a minha presença neste mundo. Regressava a casa e o circo voltava a abrir as portas, todos os dias.

- Em que estás a pensar?
- Nada. Estou só a falar com fantasmas.
- Nos teus olhos mortos vislumbro o que sempre foste. Escondido por detrás do véu ainda vejo o que sempre amei.
- Não passam de farrapos e espantalhos.
- Amo-te. Ainda te amo... Nunca deixei de te amar...
Em silencio, fomos até a minha casa. Entramos. Os demônios do sexo e da luxúria invadiram-nos. Encostados a porta, as nossas mãos procuravam os nossos sexos, apoderavam-se e brincavam violentamente com eles. Rasgámos as roupas. Os beijos mutilavam os nossos corpos, deixavam rastos vermelhos e incandescentes, eternos como os que crivavam o meu coração. No chão possuimo-nos como dois animais ciosos. Não conseguíamos respirar, os nossos músculos arqueavam-se, gritávamos, uivávamos.
- Amo-te.
Não respondi, tinha os olhos fechados. Não conseguia, não queria ver o teu rosto extasiado.

Imaginava o meu sexo a transformar-se numa faca com a qual rasgava as tuas entranhas.
Via Lautreamont e Sade a foderem. Lautreamont não queria.
- A carne é fraca! Nunca serei fraco! Serei sempre um discípulo da força, do inferno.
- Só a cona é fraca. A idéia de procriação que nos impõe a igreja. Só estamos aqui para o prazer. Este é que nos é proibido. Este é que nos transforma em seres superiores, Deuses eternos e sem medos. O famoso segredo escondido na sumarenta maçã,
- Urina para a minha boca.
- O meu jantar foi de hortelã. Irás preferir as minhas fezes.
- Vou usar-te como um vulgo objeto. Vou humilhar-te como um escravo. Mas vais saber que só eu te poderei salvar. Vais lamber os meus pés enquanto seguro a tua vida entre as minhas mãos. Vais suplicar-me. Ai, sim, irei ter o prazer. Vou ser o teu Deus!
- Masturba-me enquanto me arrancas os testículos.

Atingimos um orgasmo cósmico e violento. Os nossos corpos eram as vitimas dum terramoto, dum furacão nunca antes conhecido. Parecia ter morrido, cai sobre ti, sem forças. Abraçaste-me durante minutos, horas, semanas, anos, a eternidade. Retomando algumas forças, com os nossos sexos ainda fundidos, levantei o meu tronco e olhei para os teus olhos. Hipnotizado, enfiei as minhas unhas no teu peito e arranquei o teu coração ainda cheio de vida e quente, beijei-o, esfreguei-o contra o meu rosto e voltei a beija-lo até sentir as tuas ultimas forças a abandonar-te.

Levantei-me e fui a garagem. Coloquei o teu coração na mesa. Com todas as forças da minha alma louca esfaqueei-o com pregos e chaves de fendas. Batia e batia mais, sem parar. Não conseguia controlar os meus membros. Não conseguia parar de martelar com um movimento histérico e sem fim. E finalmente desmaiei. Foi um coma sem sonhos, vazio, só aquela luz branca e quente que chamava por mim. Entorpecido, acordei, levantei-me e olhei para o pedaço de carne informe e agonizante na mesa. Peguei nele e voltei para a sala. O teu corpo estava lá estendido, o tapete estava cheio de sangue. Parecias uma sereia aconchegada no meio deste mar vermelho. Voltei a colocar o teu coração no teu peito. Pela primeira vez vi o teu corpo sem mascaras, puro como nunca o tinha visto antes. Pela ultima vez, pousei o meu corpo por cima do teu e amei-te. Fixei os teu olhos e – dentro de ti - finalmente consegui chorar e dizer-te:
- Amo-te.

Entrei de novo na garagem e peguei numa corda. Delicadamente enrolei-a a volta do meu pescoço e fui para a varanda. Estava de dia, os pássaros calaram-se, olhei para o sol, desafiei-o até queimar os olhos e enforquei-me.

original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/120333.html
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Nunca se sabe [Aug. 23rd, 2006|09:22 am]
diario_banal
Chegámos os três ao local indicado pelos cartazes, sendo a sua descoberta facilitada pela fila de mais de quatro kilometros de carros estacionados. A estrada de terra batida parecia uma arvore de natal enfeitada com estes veículos multicolores. Sinalizados cuidadosamente – nas suas partes inferiores - com neons de todas as cores dum arco-íris.
- Nunca se sabe, é que estes gajos que andam na estrada todos bêbados não vêm rigorosamente nada. Mais vale prevenir que remediar!
A preocupação cívica - quase bíblica – dos seus donos ainda se tornava mais flagrante, ao inspeccionar discretamente o interior destes cavalos de ferro. Não faltavam terços pendurados no retrovisor interior, nem as almofadas colocadas na parte de traz, peças preciosas feitas da mais delicada seda cor de rosa, emoldurada em renda branca e com uma mensagem – pintada de branco - de clara devoção a nossa bandeira: “Amo-te”.

A festa estava ao rubro. Em cima do palco improvisado – provavelmente constituído por 2 atrelados de tractores – a banda parecia estar em transe. Um Ray Charles branco e com risca ao meio entusiasmava-se atrás do teclado. O baterista, também cego, com pança vitima de excesso de cerveja absorvido durante os ensaios, martelava freneticamente o seu instrumento composto de 3 peças. O guitarrista, visivelmente um dos poucos sobreviventes dos seguidores do nosso amigo Axl Rose, bandolete a condizer com as calças em Lycra cor-de-rosa, dedilhava suavemente a sua Fly V. A vocalista aos pulos - mini-saia dourada e top provocante pousados sobre um corpo que visivelmente não tinha sido desenhado por Deus para tais adereços – motivava e seduzia o publico com a sua voz Agata.
- Se gostas do que é meu? Toma! Toma! Vá lá pessoal todos em coro! Que eu gosto o que é teu! Toma! Toma! Não estou a ouvir nada!

O publico era numeroso, parecia que toda a população da Cidade Fantasma tinha sido transportada até esta bucólica praça. A importância do evento podia ser facilmente quantificada pelo peso de brilhantina e maquilhagem aqui presentes. Visto de cima, desenhava-se um templo Stone-Age humano. No seu centro, casais reais ou ocasionais, agitavam freneticamente os seus corpos. Um patchwork multicolor, homenagem a alegria e a tolerância; vislumbravam-se pares velhos, novos, gordos, magros, novos e velhos misturados, pares homossexuais. Apesar de notar – curiosamente - que só a vertente lésbica parecia estar aqui representada. Uma poeira magica envolvia-os, assemelhava-se a uma constelação de estrelas cinzentas com cheiro a estrume que os unia e fundia, um betão composto por brita saltitante com o qual se erigia um santuário dedicado aos Deuses do Amor.
- É pena, não conseguimos dinheiro suficiente para alugar uma maquina de fumo. Isto é que era bombar! Aposto que até a TVI vinha! - ouvi a minha esquerda.
- Dá-lhe com força Ágata!
- Chama-se Simone! Simone....

A pouco mais de um metro de distância, um cordão formava-se. Calças de ganga vincadas e perfeitamente engomadas, camisas Sacoor, sapatos cobertos de terra, cerveja na mão esquerda e Malboro na mão direita, pareciam ser o traje obrigatório desta segunda fila de guerreiros. Perdidas no meio desta legião, uma dúzia de Anjos femininos, visivelmente com alguns problemas de expressão e de coordenação motora, seguravam-se a este mastros seguros e firmes. Apresentavam um espectáculo que colocava - a um olhar atento - serias duvidas acerca da não presença de sexo nestas figuras que povoam o Paraíso.
- Ca-ca-calma! Já va-va-vamos! Chamas-te co-co-como? Já não me-me lembro! eh-eh.
- Vi-vi-vi-vi-a-a-a-ne-ne! Que-que-rido!
Tal como o traje, o perfume também devia ser regulamentado. Emanava, nesta área, uma fragrância composta por – sem proporções facilmente perceptíveis – cerveja morna, sardinhas, bifanas, mostarda, suor, vinho e uns - sempre refrescantes – arrotos. Apesar de diferente, a movimentação deste segundo grupo não tinha nada a invejar a do que compunha a pista de dança. Outras danças eram aqui praticadas. O Deus do engate era aqui venerado mais do que em qualquer outra parte. Os maravilhosos anjos despojados das suas asas encontravam-se protegidos por vários guarda-costas que as baptizavam com novos nomes.
- Heiiiiiiiiiii Carapau!
- Então Bomboca, está tudo bem?
- És boa como o milho!
Provas irrefutáveis que estávamos perante uma plateia apreciadora de desportos náuticos ou conhecedora dos mais íntimos segredos da botânica. Na fronteira com os dançarinos encontravam-se os mais corajosos. Não temendo pelas suas vidas - no final de cada canção – abandonavam as suas espadas incandescentes, vendidas a sensivelmente 3 euros o pacote de 20 e tendiam delicadamente os seus braços poderosos em direcção as metades femininas dos pares que se separavam na pista de dança.
- Então! Já me prometeste duas vezes!
- Desculpa mas estou cansada. Não vai dar.
- Vais ver se estas cansada! 'tas-me a chamar de parvo ou que? Olha que ao outro, o loiro de cabelo encaracolado, não lhe dizes que estas cansada! Porca!
- Calma ai meu! Se diz não quer, deixa-a em paz! Olha esta aqui a R que não se importava de dançar contigo!
- Bola! Aquele tijolo! Só com muita mais cerveja em cima do pelo!
Deliciosamente, sentia-se aqui um profundo respeito pela tendências sexuais de cada um e os pares lésbicos nunca eram importunados. Curiosamente, podíamos notar uma certa uniformidade na fisionomia rechonchuda e sorridente destas simpáticas – como se costuma dizer - meninas. Seria esta a prova do velho ditado francês acerca do Amor: “Qui se ressemble s'assemble”?

A margem destes dois grupos, com trocas posicionais pontuais – para reabastecimento ou descanso - tínhamos um segundo cordão. Posicionado estrategicamente ao pé dos comes-e-bebes, pesadamente encostados aos balcões (ou por vezes deitados até) tínhamos calças extremamente enlameadas, camisas aos xadrez e botas. Com o rosto rosado, miravam as bailarinas.
- Já bebi mais de 20 imperiais! Bem me podes oferecer uma agora!
- Lamento mas é contra a politica da casa.
- Vá lá meu!
- Então J estas bom? Há quanto tempo que não te via! Toma lá um bejeca, é oferta da casa.
Misturados o este endiabrado bem que parado grupo tínhamos os verdadeiros oficiais, os Donos dos Carros. Pesava neles um ar triste, mas responsável de quem não podia beber. Soldados solitários e tímidos no meio da noite escura, demasiado importantes por serem importunados durante a semana para sair na Cidade Fantasma. Só eram chamados em casos excepcionais, quando a guerra era travada alem fronteiras. Com vénias dorsais e silenciosas, a participação a deboche e desgraça dos outros grupos era-lhes impedida. As suas posições, na hierarquia deste tipo de eventos, não lhes permitia misturar-se com o vulgo rebanho. Tinham que sair como entravam. Puros!
- O verdaeiro heroi nunca suja as mãos e nem sequer fica despenteado!

Com o F e o M, dirigimo-nos até as tascas. Era a primeira vez deles, por isso tínhamo-nos preparados devidamente em casa com alimentos espirituais frescos e directamente importados de Holanda. As nossas gargantas estavam secas, precisávamos beber. Durante estes últimos três dias não tínhamos parado de rir, as nossas bocas estavam exaustas, tínhamos cambras a volta do nossos olhos ligeiramente avermelhados. Mas esta noite era a ultima e não nos sentíamos com vontade nenhuma de abrandar o ritmo. Encostados a bancada, aguardávamos o melhor momento para entrar no baile. Quando de repente a musica parou. Toda gente parou. Toda a gente se virou para a entrada do recinto. Incrédulos e surpreendidos também olhamos.

Tinha acabado de entrar um Pirilampo Magico com 2 metros de altura, metade azul e metade roxa. Sobre os seus ombros estava pousado um casaco de pele comprido; pela espessura do pêlo e a sua cor dourada podia-se concluir que algumas raposas tinham sido sacrificadas para confeccionar esta peça do maior encanto. Pendurados ao seu pescoço, segurados por duas correntes imponentes em ouro, encontrava-se o símbolo da comunidade que tanto tinha ajudado este povo na compra de carros de luxo. Feita de ouro puro, incrustado de dezenas de pedras das mais preciosas, devia pesar uns 5 kilos. A esquerda e a sua direita desta ilustre figura, duas deliciosas meninas asiáticas com provavelmente pouco mais de 18 anos. Vestiam micro-saias prateadas que deixavam distinguir umas cuecas de pérolas quando caminhavam. As suas pernas intermináveis, acabavam com sapatos de salto alto, também eles prateados. Os seus peitos estavam unicamente tapados por um blazer branco e desapertado. Chapéus texanos - também eles prateados - cobriam-lhes a cabeças. Ao ritmo das ondulações das suas ancas, a abertura dos olhos do publico sintonizava-se com o aparecimento e desaparecimento do quadro pintado de pérolas e extremidades rosadas.

O Stonehenge, no preciso momento desta aparição abriu-se ao meio, tal o Mar Vermelho a oferecer-se a Moises. Detrás do palco, saltou um homem, nervoso, que se moveu em direcção ao recém chegado profeta.
- É o Presidente da Câmara! Coitado! Foi ele que organizou tudo! - Ouvi á minha esquerda.
- E chegou o Pappy Chulo! - Ouvi a minha direita.
- Vai ter que lhe dar metade da receita, senão.... - Ouvi á minha esquerda.
- Senão o quê? - Perguntei.
- Armagedon! Armagedon! Deus é impiedoso para quem não respeita o seu filho!
- Não me digam que acreditam que o filho de Deus seja um Pirilampo! - Comentei.
- Filho ou não, têm uma legião de seguidores, uns psicopatas com sede de sangue, a espera dum simples sinal para despertar.
- Temos que ser solidários e ajudar os nossos irmãos.
- Ou iremos sofrer a vingança de Deus!

Num movimento relâmpago, surgiram de trás do palco 10 Ninjas BDSM, vestidos de preto e mascarados. Aproximaram-se do Pirilampo e agarraram-no. O baterista principiou então um ritmo índio, seguido pela vocalista que entoou um cantos tribais e guerreiros, com a sua mão direita tapava e destapava freneticamente a sua boca.
- Hu hu hu.
A volta do preso, formou-se um circulo, as danças de engate foram substituídas por danças de guerra. Num movimento de clara devoção, imitavam os cantos da vocalista.
- Agora ela deve estar toda contente! Estão todos em coro. - disse-me o M.
Pediam a ajuda do Grande Manitu, invocavam as forças dos espíritos da natureza.
- Griiiiiiiiii Hu hu hu Griiiiiiiiii hu hu .
O profeta foi então preso e amarrado a um poste eléctrico. A dança não parava e os cantos aumentavam de intensidade. Um velho feiticeiro, calças justas de pele preta e tronco nu apareceu. Em cima da sua cabeça – emoldurada com longos cabelos pretos - pousava um chapéu feito com penas de faisão, juntas com o auxilio de fio de ouro.
- Tentaste roubar os nossos irmãos! Tentaste tirar-nos a nossa terra! Por isso iras ser castigado!
- Morte ao traidor!
- O teu “scalp” será a nossa recompensa. O teu sangue irá curar a nossa dor e satisfazer a nossa sede de vingança.
- Scalp! Scalp! Scalp!
Como que chamado pela multidão em delírio, apareceu a direita do feiticeiro, um homem de bata branca, toca alta e branca. Parecia ter uns 70 anos, a sua voz tremia, era difícil de percepção, talvez pelo efeito de Parkinson ou de qualquer outro tipo de doença que infelizmente parece bater a porta de todos os nossos caros sábios de terceira idade (indicio infeliz de outra visita, o tão temido companheiro de capa preta e foice enferrujada).
- Sousa! Sousa! - gritava o publico em transe.
Na sua mão segurava firmemente - embora tremendo ligeiramente – uma faca larga e com pelo menos 30 centímetros. Brilhava e reflectia as luzes da festa como se de uma bola de espelhos se tratasse. O feiticeiro olhou para ele com ar de pena.
- Coitado. Esta guerra já não é tua. Poupa os teus esforços, a luta dos sábios é contra os penicos. Deixa esta para nós.
Tirou-lhe a faca da mão.

Num movimento rotativo, certeiro e cirúrgico, abriu uma entrada com 2 centímetros de profundidade sobre todo corpo do Pirilampo Magico. Ao grande espanto do publico em delírio, o gigante felpudo não disse nada. Afinal, não passava dum homem com aproximadamente 50 anos e careca, vestido com um fato de Carnaval. O seu rosto era extremamente disgracioso, pêlos cresciam-lhe em cima do nariz, rugas profundas desenhavam ondas na sua testa, devia pesar uns 120 kilos.
- Era a única hipótese que tinha com as miúdas. Ninguém resiste ao apelo dum Pirilampo.
Ainda atortoado pelos acontecimento, mas com a mente sempre desperta para qualquer bom negocio, o Presidente da Camara aproximou-se. Tirou o fato da vitima e colocou-o e cima dos ombros. Num gesto teatral e magnânimo, soltou e libertou o preso. Este fugiu, nu, voltou ao anonimato do qual se tinha tentado livrar com tanto esforço e suor. As suas duas acompanhantes, trabalhadoras dedicadas, empenhadas e respeitosas da hierarquia, colaram-se imediatamente ao novo patrão. O povo curvou-se perante o seu novo líder.
- Viva o Pirilampo! Viva o Presidente!

A festa retomou, com se nada tivesse acontecido. Fomos embora, dirigimo-nos para a praia. Queríamos pela última vez ouvir os cantos das ondas. Os nossos risos tinham um sabor a Orange Bud. No dia seguinte, fizemos as suas malas e levei-os para o aeroporto. No caminho, paramos para comprar um Pirilampo Magico cada um.
- Nunca se sabe.

original: http://emiliodobrasil.livejournal.com/123515.html
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